Título: Brasil precisa de classe média de empresas
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 20/02/2011, Economia, p. 31
BRASÍLIA. De olho nas prioridades do novo governo, o Banco Mundial (Bird) está revendo os projetos que vai realizar no Brasil no próximo ano fiscal, para o qual já reservou US$3,5 bilhões. Ao GLOBO, o senegalês Makhtar Diop, diretor do Bird para o Brasil desde 2009, diz que o país precisa desenvolver uma espécie de "classe média das empresas" para crescer e se preparar para os choques naturais como o fez para os econômicos. Diop quer montar um amplo diagnóstico com a ajuda dos estados brasileiros até o início das próximas chuvas.
Qual é a estratégia do Bird para o novo governo?
MAKHTAR DIOP: Este é um ano importante, de transição para o Brasil com Dilma. É também o ano em que a estratégia do banco para o país será revista e atualizada. Vamos apresentar a nova estratégia ao Conselho de Administração em julho. Vamos ter um diálogo mais formal com os ministros para as prioridades. A previsão é de US$3,5 bilhões para o próximo ano fiscal.
O que estará nas novas prioridades do banco?
DIOP: Um dos desafios que o Brasil precisa enfrentar é o de criar as condições para o crescimento sustentado. Os países que passaram para um nível de desenvolvimento superior tiveram episódios de crescimento de longa duração. Já registramos no Brasil o crescimento sustentado por algum tempo. Mas este esforço precisa ser perseguido ainda por anos e anos para permitir ao país mudar de nível e alcançar certas ambições. Apesar dos progressos enormes do governo Lula, o Brasil ainda é muito desigual.
"O setor público tem que ampliar os investimentos"
Como atacar a desigualdade além do que já foi feito?
DIOP: Não estamos falando apenas de renda. Quando olhamos para o setor produtivo, vemos que também é desigual. São grandes empresas como Vale, Petrobras, Embraer, que podem competir no mercado internacional, e pequenas que têm acesso a uma tecnologia limitada. Em termos de renda, já houve a chegada maciça de pessoas à classe média. Mas no nível produtivo falta o equivalente. Em países como a Alemanha, há uma grande rede de médias empresas, que ajudaram a criar um tecido econômico sólido.
Mas a renda também continua sendo prioridade?
DIOP: Claro. Estamos preparando a segunda fase do Bolsa Família. O governo já decidiu fazer isso. Tem que ver quais são os obstáculos que impedem os beneficiados de se manterem no mercado de trabalho. Vai exigir qualificação e competência para ter um emprego estável de qualidade. A melhora do capital humano aumenta a produtividade global da economia.
O Bird mantém a agenda tradicional das reformas?
DIOP: A situação fiscal do Brasil melhorou de maneira significativa. Agora a questão é resistir aos choques, mas, a longo prazo, ter um nível de crescimento mais elevado. Isso passa por reformas microeconômicas. Uma das restrições do Brasil é o nível de investimento baixo, de 16,7% do PIB, contra 40% do PIB na China, 32% na Índia e de 21% do PIB na Rússia.
De onde precisa vir mais: do setor público ou do privado?
DIOP: No Brasil, 13% do PIB vêm do setor privado. Somente entre 3% e 4% do PIB são setor público. Se tomamos a China, é meio a meio. É preciso aumentar o bolo. Ele é pequeno: 16,7% do PIB não é suficiente para um país como o Brasil. O setor público tem que ampliar seus investimentos. Não é simples no nível político, eu sei, mas é preciso reequilibrar o nível de gasto. O setor privado também terá que contribuir.
Que outras restrições o Bird vê para o país?
DIOP: O Brasil mostrou capacidade para resistir aos choques econômicos. Mas não está preparado para choques naturais, que afetam o crescimento. Se nada for feito, haverá momentos em que os estados terão taxa importante de crescimento, como vinha tendo o Rio de Janeiro, e, de uma hora para outra, um choque virá e vai desorganizar tudo (em referência à tragédia na Região Serrana). É uma questão econômica e não apenas climática e afeta os mais pobres.
Como o Bird pode contribuir?
DIOP: A ideia é remanejar recursos de outros programas para fazer um diagnóstico, ver que leis não funcionam, para nas próximas chuvas os estados estarem preparado.