Título: Filha de Rubens Paiva quer punição à tortura
Autor: Braga, Isabel
Fonte: O Globo, 22/02/2011, O País, p. 10

Ex-deputado desaparecido durante ditadura militar é homenageado em exposição

A EXPOSIÇÃO sobre Paiva: 40 anos depois, caso sem explicação

BRASÍLIA. Há 40 anos aguardando uma resposta do Estado sobre o paradeiro do corpo do pai, Vera Paiva, uma das filhas do ex-deputado Rubens Paiva, defende que o país resgate sua história e puna os torturadores da ditadura militar de 1964. Para Vera, que comemora a exposição sobre a vida do pai inaugurada na última quarta-feira, na Câmara dos Deputados, a Comissão da Verdade tem que ir a fundo e resgatar a verdade desse período histórico brasileiro:

- Não é só um problema de vingança pessoal. Não era um caso de guerra contra um terrorista. Meu pai voltava da praia e foi preso em casa. Ele acreditava em um conjunto de valores como justiça, cidadania e, por isso, foi perseguido e morto. Hoje, não só ele não está enterrado por sua família, como aquilo contra o que ele lutava, a falta de cidadania, de justiça, a discriminação, também não foi enterrado. É o Estado terrorista que não protege o cidadão. O Brasil é o único país que não puniu seus torturadores. O passado não foi enterrado - afirmou Vera.

Professora da Universidade de São Paulo e coordenadora do Núcleo de Aids da universidade, Vera critica o fato de o Brasil ter mandado o ministro da Defesa, Nelson Jobim, defender, na Corte Interamericana de Direitos Humanos, a postura de não rever a Lei da Anistia, evitando a punição aos torturadores. O Brasil foi condenado nesta Corte.

- Até hoje não cassam nazistas? A maioria dos militares tem vergonha (do que foi feito), mas os que fizeram têm que ser identificados e punidos. O Jobim é uma vergonha. Também, mandarem o ministro da Defesa para a Corte Interamericana defender isso? - questiona.

Ação política e vida com família em 13 painéis

Se critica Jobim, a filha de Rubens Paiva está esperançosa com a atuação da nova ministra de Direitos Humanos, Maria do Rosário:

- A resistência venceu e assumiu o governo. Gostei muito da ministra Maria do Rosário. Ela tem força e energia para levar adianta a Comissão da Verdade, para chegarmos à verdade.

Em 13 painéis, a exposição "Não tens epitáfio, pois és bandeira" traz relatos e recortes da vida de Rubens Paiva. Os painéis retratam a ação política e momentos com a família. Paulista, foi eleito deputado em 1962 e em 1964 teve o mandato cassado. Exilou-se, mas voltou ao Brasil e retomou a vida como engenheiro, no Rio. Foi preso novamente em 1971 e torturado até a morte; seu corpo não foi encontrado.