Título: Itamaraty aguarda para resgatar brasileiros
Autor: Ribeiro, Fabiana; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 22/02/2011, O Mundo, p. 24
Avião fretado ainda não foi autorizado a sobrevoar espaço aéreo líbio. Patriota classifica violência como inaceitável
RIO, SÃO PAULO e BRASÍLIA. Enquanto dezenas de brasileiros aguardavam ontem pelo plano de retirada da Líbia, o Ministério das Relações Exteriores trabalhava junto com três empresas - Queiroz Galvão, Odebrecht e Andrade Gutierrez, cujos alguns funcionários desejam deixar o país norte-africano - para acelerar o processo de repatriação. Até à noite, o avião contratado pela Queiroz Galvão para retirar 123 brasileiros de Benghazi ainda não havia recebido autorização para sobrevoar o espaço aéreo líbio. Segundo o Itamaraty, há entre 500 e 600 cidadãos brasileiros vivendo no país.
- Era para eles terem sido retirados ontem (domingo). Estamos trabalhando intensamente para que o transporte aconteça o quanto antes - disse o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota.
Já Patriota afirmou que a situação no país é inaceitável.
- Vemos com grande preocupação os eventos na Líbia, que parece que alcançaram um padrão de violência absolutamente inaceitável.
Ontem, diante do agravamento da situação e das dificuldades até mesmo para manter contato com o embaixador na Líbia, George Ney Souza Franco, o Itamaraty divulgou nota oficial repudiando a violência e conclamando as autoridades líbias a darem "atenção urgente à necessidade de garantir a segurança na retirada dos cidadãos brasileiros que se encontram nas cidades de Trípoli e Benghazi".
Como o avião contratado pela Queiroz Galvão não estava habilitado a sobrevoar o espaço aéreo do país, não havia uma definição sobre o desfecho da operação de resgate. Só com a autorização o avião partirá do Brasil para resgatá-los e levá-los a Trípoli, de onde os brasileiros poderão voltar para casa.
Brasileiros estão em segurança, diz ministério
Segundo Patriota, o plano inicial da transferência até Trípoli está mantido, mas caso a situação se agrave na capital, outras estratégias podem ser analisadas pelo governo. Ele contou que está em contato com países como Portugal, para analisar a viabilidade de uma ação conjunta de retirada de cidadãos.
O Itamaraty informou que até ontem nenhum brasileiro que vive na capital havia formalizado pedido de socorro. Por telefone, o primeiro-secretário da embaixada brasileira em Trípoli, Márcio dos Anjos, admitiu ao GLOBO que, apesar dos esforços, ainda não há sequer um indicativo do governo para autorizar o resgate.
--- Até o momento, não tivemos qualquer sinal de liberação. Estamos aguardando autorização do governo líbio. A embaixada também está em contato com a chefia das empresas (brasileiras) para saber como está a situação dos trabalhadores - afirmou.
Segundo as últimas informações transmitidas ao Itamaraty pelos diplomatas em Trípoli, todos brasileiros estariam em segurança. Por fax, o embaixador Souza Franco informou que nenhum dos trabalhadores ou seus parentes está em situação crítica, como, por exemplo, falta de abrigo, comida ou de medicamentos.
Anjos contou que, horas antes dos primeiros bombardeios aéreos na capital, o governo de Kadafi transmitiu mensagens para que as pessoas ficassem longe das ruas.
- A população está atendendo aos pedidos do governo. Agora, são 21h (horário local) e as ruas estão vazias. O que se vê são eventos localizados, de grupos pró e contra (governo). É na região de Benghazi que as manifestações estão mais violentas.
Brasil tem forte laço comercial com a Líbia
A crise política fez com que as três empresas brasileiras acelerassem o processo de repatriação de seus funcionários. A Odebrecht, por exemplo, informou que "vem tomando todas as providências". A construtora Andrade Gutierrez, disse que "providenciou a retirada de seus funcionários e familiares do país" e que "considera a situação sob controle". Já a Petrobras, que tem menos de dez trabalhadores na Líbia, disse que não planeja, até o momento, retirar seus empregados de lá.
A presença de brasileiros na Líbia se deve aos laços econômicos entre os dois países, que vêm mudando nos últimos anos. O saldo da relação entre os dois países se transformou, em 2010, num superávit de US$355,3 milhões para os brasileiros. O motivo da mudança foi a autossuficiência em produção de petróleo conquistada pela Petrobras.