Título: Alta fidelidade
Autor: Vasconcelos, Adriana ; Jungblut, Cristiane
Fonte: O Globo, 24/02/2011, O País, p. 3

BRASÍLIA. Para assegurar espaço no loteamento dos cargos, os partidos da base aliada fizeram grande esforço para mostrar alta taxa de fidelidade na votação do projeto de lei que estabelece o salário mínimo de R$545, ontem no Senado. O exemplo da votação da bancada do PMDB na Câmara, que fechou 100% com o governo, serviu de parâmetro, o que facilitou muito a vida do governo. Apesar do jogo pesado do Planalto, os senadores Jarbas Vasconcelos (PE) e Roberto Requião (PR) votaram contra o governo. Da base, a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) também entrou na conta dos dissidentes.

Mesmo assim, houve um esforço do Planalto para monitorar os 62 votos da base durante todo o dia. Até mesmo a presidente Dilma Rousseff entrou nas negociações para mudar o voto do senador Paulo Paim (PT-RS). Depois de uma conversa de quase uma hora e um apelo pela unidade, Paim mudou de posição e anunciou que votaria pelo mínimo de R$545, alegando estar apoiando uma regra de política salarial de longo prazo.

O encontro de Dilma e Paim foi intermediado pelo ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência) e deu um argumento ao senador para justificar a posição. Paim chegou cedo ao Palácio do Planalto, com 15 minutos de antecedência. Ao ser recebido, Dilma elogiou o fato dele ter perdido peso e lembrou que em 1978 fez campanha em fábricas de Canoas, no Rio Grande do Sul, pela eleição de Paim para comandar o Sindicato dos Metalúrgicos. Na sequência, Dilma fez um apelo.

- Para nós, é muito importante a sua posição. Você sabe que o seu voto tem um valor simbólico pela luta histórica do salário mínimo. Para nós, é importante estarmos todos juntos - disse Dilma para Paim, segundo relato do próprio senador.

Apesar da reunião não constar da agenda de Dilma, a foto dos dois apareceu no site do Planalto antes do meio-dia. Além disso, o blog do Planalto fez uma entrevista "exclusiva" com Paim. Logo depois do almoço, o petista subiu à tribuna do Senado para anunciar sua nova posição. Ele justificou a mudança e disse que Dilma discutiria uma política de valorização das aposentadorias e uma alternativa ao fator previdenciário. Mas reconheceu que ela não assumiu compromisso com as propostas.

Com isso, a bancada do PT conseguiu fechar os 15 votos em favor da proposta do governo. Paulo Paim contou ainda que até mesmo o senador Pedro Simon (PMDB-RS) o havia aconselhado a dar um voto de confiança à presidente Dilma e que votaria com ele no plenário. Era um sinal de que a pressão palaciana por unidade na base havia surtido efeito. Simon estava na contabilidade do Planalto como um voto incerto.

COLABOROU: Chico de Gois