Título: Déficit externo em janeiro é o maior da história
Autor: Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 24/02/2011, Economia, p. 28

BRASÍLIA. O Brasil começou o ano gastando como nunca no exterior. Com o dólar barato, a atividade doméstica ainda aquecida e os países ricos ainda emergindo da crise, as viagens internacionais de brasileiros, o aluguel de equipamentos e as remessas de lucros e dividendos explodiram. Isso levou as transações correntes ¿ trocas de bens e serviços do país com o exterior ¿ ao maior déficit já registrado em um mês de janeiro desde 1947: US$5,409 bilhões, contra US$3,821 no mesmo período de 2010. Foi também o pior desempenho mensal desde dezembro de 2009.

Para analistas, a situação continua sustentável ¿ em 2011 devido à grande atratividade do Brasil para os investidores internacionais, que têm despejado bilhões no setor produtivo e no mercado financeiro brasileiros. Mas alertam que a rápida deterioração das contas resulta em um país cada vez mais dependente de recursos externos e mais vulnerável, inclusive a uma brusca mudança no câmbio ¿ com impactos, por exemplo, na inflação.

No ano passado, o déficit em conta corrente subiu 95,5%. Confirmada a projeção do BC de que o rombo fechará 2011 a US$64 bilhões, o salto em apenas dois anos terá sido de 163,4%.

¿ Estamos caminhando cada vez mais rápido para uma situação de dependência do capital externo. Mas já estamos pagando a fatura, que é a penetração exagerada de produtos importados, sobretudo de bens de consumo duráveis e o aumento das viagens internacionais em detrimento do turismo nacional. Isto não traz benefícios para a economia ¿ afirmou Luís Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e de Globalização Econômica (Sobeet).

Segundo relatório divulgado ontem pelo Banco Central (BC), a despesa dos brasileiros com viagens ao exterior bateu em US$1,741 bilhão no mês passado, recorde mensal e um crescimento de 43% frente a janeiro de 2010. Os gastos de brasileiros fora do país superaram as receitas obtidas aqui com os turistas estrangeiros em US$1,146 bilhão, o maior déficit já registrado para o mês. Até o dia 23 de fevereiro, o montante desembolsado lá fora atingiu US$1,052 bilhão.

Investimentos no setor produtivo seguram resultado

As remessas ao exterior de lucros e dividendos ¿ favorecidas pelo câmbio e pelo fato de as matrizes das multinacionais estarem precisando de capital, diante das economias ricas ainda fracas ¿ mais do que dobraram em relação a igual período do ano passado, chegando a US$1,879 bilhão.

Já o aluguel de máquinas ¿ fruto do aumento dos investimentos do setor produtivo brasileiro ¿ teve alta de 21% frente a janeiro de 2010 e ficou US$1,062 bilhão no vermelho. A conta de juros também foi significativa, com despesa de US$1,829 bilhão no mês passado.

¿ Podemos atribuir o déficit em conta corrente ao crescimento da economia brasileira nos últimos meses, o que repercute em uma maior demanda por bens e serviços e insumos e numa maior renda e poder aquisitivo das pessoas ¿ resumiu o chefe-adjunto do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel.

O resultado das contas externas só não foi considerado desastroso devido aos investimentos estrangeiros diretos (o chamado IED), destinado ao setor produtivo. Eles somaram US$ 2,956 bilhões, o melhor janeiro desde 2008. Em fevereiro (até o dia 23), já atingiram US$6,7 bilhões. Nos últimos 12 meses, são US$50,817 bilhões, o maior valor da série para acumulados neste período.

Apesar disso, o IED não é suficiente para cobrir isoladamente o rombo. A previsão do BC é que a conta corrente chegará ao fim deste ano em US$64 bilhões contra uma projeção de entrada de recursos estrangeiros de US$45 bilhões.

Sobeet alerta para risco redução nos investimentos

Maciel, do BC, porém, ressaltou que o número é robusto e dará margem para que o balanço de pagamentos (que reúne as contas corrente e de capital) feche o ano equilibrado. Também é esperado um ingresso volumoso de recursos para aplicações financeiras este ano, de US$40 bilhões.

O presidente da Sobeet ressalvou que os investimentos estrangeiros têm comportamento volátil e a entrada maciça desses recursos no Brasil está ligada a fatores externos, como o desaquecimento das economias dos países desenvolvidos, o que obriga matrizes a buscarem oportunidades fora:

¿ Isso tudo pode mudar da noite para o dia, com maior crescimento das economias centrais e queda no valor das commodities (o preço alto tem beneficiado a balança comercial brasileira).

Para o professor da PUC-SP Antonio Correa de Lacerda, a piora das contas externas tem que ser enfrentada em algum momento. Ele projeta que o Brasil chegará ao fim de 2012 com déficit de US$100 bilhões.

¿ Isso não é sustentável. Estamos ficando mais vulneráveis ¿ disse ele.

Já Roberto Padovani, economista do WestLB, acredita que a tendência será de acomodação do déficit externo ao longo de 2011, com a economia brasileira crescendo num ritmo abaixo da média mundial. Isso frearia ganhos de renda e a disposição de importação das indústrias.