Título: Na era pós-Kadafi, temores de guerra civil
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 24/02/2011, O Mundo, p. 37

LONDRES. Ao contrário do Egito e da Tunísia, a Líbia tem identidades tribais falando quase tão alto como um senso de nacionalismo. Essa característica vem levando analistas a preverem que a possível queda de Muamar Kadafi possa ser apenas o preâmbulo de um longo conflito. Ainda que as fileiras da oposição tenham engrossado nos últimos dias, parece difícil prever o comportamento dos diversos clãs do país num cenário sem o ditador. E o quadro se complica em função da presença de petróleo e gás natural na equação, que tem dado margem a temores de uma guerra civil.

Nos últimos dias, empresas de consultoria em segurança, divulgaram relatórios a seus clientes que tratam do aumento de chances de degradação da situação na Líbia. Ainda que o principal fator continue sendo a promessa de Kadafi de mais retaliações, já há preocupação com a disputa pelo poder pelos espólios do homem que desde 1969 tem as rédeas do país. Assim como Egito e Tunísia, a supressão da oposição criou um vácuo de lideranças nacionais, mas não de regionais.

¿ O risco de guerra civil e fragmentação na Líbia é significativo e maior do que em qualquer outro país do Norte da África ou do Oriente Médio. Apesar de toda a centralização de poderes de Kadafi, há um importante fator tribal que terá influência no jogo de poder do país ¿ afirma o português Rafael Gomes, diretor de análise de risco da Exclusive Analisys, consultoria com base em Londres e que tem como clientes multinacionais operando em regiões voláteis como Norte da África e Oriente Médio.

De militares a islamistas em rota de colisão

Para Imad El-Anis, analista da Universidade de Nottingham, há uma incógnita representada pelo fato de as Forcas Armadas terem áreas de influência em setores da elite, que podem usar suas conexões para tentar dar um golpe.

¿ Há diferentes forças de segurança e seus movimentos serão fundamentais para o desenrolar dos acontecimentos. O grande problema é a falta de instituições civis básicas que tenham criado uma cultura de debate e de organização. Grupos de interesses, de militares a islamistas, estariam em rota de colisão.

Por maior que seja o culto a sua personalidade e o fervor com que perseguiu opositores e até ex-colegas do golpe militar que derrubou a monarquia apoiada pelo Ocidente, Kadafi não é o único homem influente na Líbia. Figuras como o ex-premier Abdulsalam Jaloud e o atual ministro da Segurança Pública, o general Younes Al-Obeidi, são vistas como possíveis líderes em compasso de espera, embora planos de ascensão vão depender do sucesso nas articulações com lideranças regionais ¿ sobretudo as que dominam territórios em que estão os recursos naturais.

¿ O regime ignorou o caráter político do levante popular e apostou no uso da força para tentar manter o controle da situação. Isso só fez inflamar os ânimos, e mesmo uma solução de consenso agora está comprometida, sobretudo num momento em que há enfraquecimento do controle do governo sobre o território. Estamos diante de um cenário imprevisível, e o que só parece certo é que a Líbia não ficará imune ao que está acontecendo no mundo árabe ¿ opina Richard Dalton, ex-embaixador britânico na Líbia e hoje parte do programa de estudos da Chatham House.