Título: Belo Monte, tábua de salvação para Agnelli
Autor: Camarotti, Gerson ; Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 26/02/2011, Economia, p. 30
BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO. O presidente da Vale, Roger Agnelli, pode voltar a ganhar o status de parceiro estratégico do governo, caso a mineradora entre no lugar do grupo Bertin na hidrelétrica de Belo Monte. O empreendimento é considerado uma obra prioritária pela presidente Dilma Rousseff. Por isso, um reposicionamento da Vale na condição de sócia do consórcio Norte Energia pode selar um destino diferente para Agnelli, cujo mandato vence em meados deste ano.
Por falta de recursos, o Bertin anunciou na semana passada sua saída da hidrelétrica, que será erguida no Rio Xingu, no Pará. O governo passou a buscar um sócio para entrar rapidamente em seu lugar, de forma a não atrasar o cronograma de Belo Monte ou serem revistas as condições de financiamento do BNDES. Além da Vale, entraram na disputa o grupo Gerdau ¿ que pode até mesmo formar uma dupla com a mineradora, segundo especulação nos bastidores do governo ¿ e o conglomerado de Eike Batista.
O diretor de Exploração Mineral e Energia da Vale, Eduardo Jorge Ledshan, confirmou ontem interesse da empresa em participar da construção da usina. A entrada seria no grupo de autoprodutor no lugar da Gaia (do grupo Bertin), que detinha 9% do negócio. Segundo o executivo, o assunto está sendo avaliado técnica e economicamente pela empresa, e a definição de uma posição deve ser comunicada ¿nas próximas duas semanas¿. A hidrelétrica de Belo Monte será a terceira maior do mundo, com capacidade de 11.230 megawatts (MW). A obra, orçada em mais de R$30 bilhões, terá R$16 bilhões do BNDES. A primeira parcela do financiamento do banco estatal de R$5 bilhões deve ser liberada no início das obras.
Se a Vale for bem-sucedida, reconhecem interlocutores da presidente Dilma, aumentaria muito a boa vontade com Agnelli, que ficou com a imagem desgastada junto ao governo após o adiamento de investimentos e as demissões, no início de 2009, ainda na gestão Lula, com o agravamento da crise financeira global.
Empresa quer reajustar preços em 20% no segundo trimestre
O governo está presente na Vale por intermédio das grandes fatias da BNDESPar e dos fundos de pensão (Petros, Previ e Funcef). É majoritário, mas tem acordo de acionistas com o Bradesco, ao qual cabe a gestão e a indicação do presidente da companhia.
Desde o governo passado, quando Dilma era a chefe da Casa Civil, o Planalto tenta forçar a Vale a se engajar num projeto de política industrial, centrado na construção de siderúrgicas e no fortalecimento de seu braço logístico, como as ferrovias e os terminais portuários.
Agnelli já realizou mudanças no plano de investimento da Vale, dando prioridade, por exemplo, à construção de uma siderurgia no Pará. Mas o plano é considerado tímido. Além disso, despertou irritação no PT e no governo quando criticou publicamente a pressão pelo seu cargo, em pleno segundo turno da campanha presidencial.
No Planalto, chamou atenção o esforço político de Agnelli para se reaproximar do governo. O gesto mais evidente foi percebido na participação, a convite, do ex-presidente Lula em uma solenidade de início de obra da Vale na capital da Guiné na última terça-feira.
Durante entrevista ontem para detalhar os resultados financeiros de 2010, a Vale anunciou que está trabalhando com um reajuste nos preços do minério de ferro em torno de 20% para o segundo trimestre do ano. O percentual vai corrigir todos os contratos firmados com clientes. O anúncio foi feito pelo diretor de marketing, vendas e estratégia da companhia, José Carlos Martins. O sistema de reajustes trimestrais, que teve início em abril de 2010, segundo Martins, teve impacto direto no bom desempenho da empresa no ano passado, quando registrou lucro líquido recorde de R$30 bilhões.
¿ Não há dúvida de que o novo sistema (de reajustes trimestrais) teve um impacto bastante positivo nos resultados, uma vez que o anterior reajustava os preços anualmente ¿ disse Martins, lembrando que o novo modelo também passou a reconhecer a qualidade do minério brasileiro. ¿ Antes, qualquer minério era vendido com o mesmo preço. Esse modelo é mais dinâmico e reconhece a qualidade do nosso produto.
Para o executivo, caso a tendência de alta nos preços continue ao longo deste ano, a Vale deverá registrar novos recordes no balanço de 2011.
Além do lucro recorde de R$30 bilhões ¿ que só perde para a Petrobras e supera, por exemplo, o valor do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país) do Paraguai ¿, a Vale também apresentou receita bruta recorde. Com alta de 94,16%, chegou a R$85,3 bilhões. A produção de minério de ferro atingiu 307,8 milhões de toneladas, 29,4% superior à produção de 2009. Os resultados superaram com folga as estimativas dos analistas.
¿ Foi a maior produção e faturamento de todos os tempos. Estamos vivendo o melhor momento da empresa ¿ disse o diretor-executivo de Finanças e Relações com Investidores da companhia, Guilherme Cavalcanti, lembrando que a oferta de minério de ferro continuará restrita nos próximos anos, o que será um fator de elevação de preços.
Ações sobem até 2,8% com bom resultado de 2010
As ações da Vale foram destaque ontem na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). O balanço da companhia foi bem recebido e os papéis ordinários (ON, com voto) chegaram a subir 2,86% pela manhã, e os preferenciais (PN, sem voto), 2,29%. Depois, no entanto, investidores aproveitaram para embolsar ganhos, e as ações fecharam o dia com valorização de apenas 0,34% e 0,02%, respectivamente. O Ibovespa, referência do mercado, caiu 0,07% ontem, aos 66.902 pontos. Na semana, o índice recua 1,71%, apesar da alta nas ações da Petrobras. O dólar, por sua vez, fechou estável, a R$1,664.
COLABOROU Lucianne Carneiro