Título: Horrores de regime ainda assobram Benghazi
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Fonte: O Globo, 26/02/2011, O Mundo, p. 34
BENGHAZI, Líbia. Segunda maior cidade da Líbia, Benghazi está livre. Mas os horrores da ditadura de Muamar Kadafi continuavam rondando ontem a cidade.
Já escurecia quando uma pequena multidão tentava, com a ajuda de picaretas, escavar o que parecia ser um buraco no qual pessoas foram enterradas vivas, dentro do que sobrou do quartel-general do Exército. O lugar foi palco da batalha sangrenta de tomada da cidade pelos rebeldes, decisiva para a conquista do oriente do país. Estima-se que mais de mil pessoas tenham morrido no fim de semana.
¿ Estamos ouvindo vozes. Tem gente viva lá dentro. Tem só um pequeno tubo para eles respirarem ¿ anunciava Walid Buseif, de 39 anos.
Anteontem, 40 jovens teriam sido retirados de um buraco similar, dentro do mesmo quartel, segundo o engenheiro Belgassem Elbadri, de 61 anos. O líbio chorou quando contou a cena:
¿ O regime de Kadafi sabia que os jovens estavam planejando uma manifestação e resolveu se antecipar. Alguns jovens foram capturados dias antes, saindo da mesquita na reza da madrugada. Muitos foram achados num buraco, praticamente enterrados vivos ¿ contou.
Líbios do exterior retornam para ajudar na revolta
Belgassem participou da batalha de tomada do quartel-general de Benghazi. O engenheiro descreve Kadafi como um sanguinário, e emociona-se novamente quando diz:
¿ Sempre esperei esse momento. Meu único medo era que esse dia chegasse e eu não estivesse vivo.
A febre da revolta nesta parte da Líbia vem aumentando na medida em que o ditador resiste e suas forças abrem fogo contra manifestantes nas ruas de Trípoli, a capital. E líbios do mundo inteiro não param de chegar, através do Egito, para ajudar a derrubar o ditador. Walid Buseif até anteontem trabalhava como operário numa construção em Bristol, no Reino Unido. Ao ver as imagens na TV inglesa de sua cidade transformada numa batalha campal, ele abandonou a mulher inglesa e duas filhas, de 5 e 3 anos de idade, para voltar à Líbia.
¿ Estou de volta. Sinto o cheiro da liberdade. Não vou embora ¿ disse.
Já era quase meia-noite quando a multidão tentava escavar o buraco com a ajuda de faróis de carro, na esperança de achar as vítimas do regime de Kadafi vivas. Com o ditador ainda aterrorizando boa parte da Líbia, um número cada vez maior de rebeldes podia ser visto nos territórios ocupados. Nas ruas de Benghazi, as pessoas andam armadas. O quartel-general destruído virou centro de visitação: famílias inteiras querem ver a destruição, enquanto crianças coletam restos de bombas e cartuchos de metralhadoras.
Homens armados nas ruas e internet cortada
Um hotel no centro da cidade abriu as portas para jornalistas do mundo inteiro, oferecendo comida e quarto grátis. Ali, os rebeldes circulam com armas, protegendo os jornalistas que ¿ para eles ¿ são no momento sua única conexão com o mundo. A sensação é que a maior parte da população procura ajudar os estrangeiros como pode, oferecendo transporte, comida e carregando as malas das mulheres. O jovem Alaa Fadalah Abdel Aziz, de 24 anos, fica monitorando o que acontece no país pelo telefone celular. Ele entrou correndo ontem no hall do hotel pouco antes da meia-noite, interpelando os jornalistas:
¿ Breaking news, breaking news (última notícia, última notícia) ¿- dizia em inglês. ¿ Neste minuto 340 tanques de Kadafi saíram de Sabha (centro do país) em direção a Trípoli (no norte).
O pai de Alaa Fadalah trabalhava para o serviço secreto de Kadafi e desertou. O jovem agora está morrendo de medo, porque o ditador colocou a cabeça do pai a prêmio. Logo na entrada de Benghazi, o cenário é impressionante. Há muita destruição, sobretudo nos postos de polícia e delegacia ¿ locais que se tornaram os principais alvos da batalha pela conquista da cidade. Não há internet e só o telefone local funciona. Há uma grande multidão nas ruas, que passam o dia se manifestando. Os moradores da cidade alteram momentos de intensa revolta contra o regime do ditador há quase 42 anos no poder, e alegria por sentirem, enfim, um vento de liberdade. Muitos dizem estar preocupados também, pois o regime ainda não caiu, e temem uma repressão ainda maior pelas forças comandadas por Kadafi.
Sob esse cenário de caos, os líbios se organizam como podem. Salah Elgool, que diz ser o empresário mais conhecido da cidade, vendendo máquinas estrangeiras, contou que seu negócio está parado. Mas disse que não se importa:
¿ Ganhar dinheiro agora é minha última prioridade. Quero este bastardo (Kadafi) fora da Líbia.