Título: Brasileiros respiram aliviados ao embarcarem de volta
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Fonte: O Globo, 26/02/2011, O Mundo, p. 34
BENGHAZI, Líbia. Foi no cansaço e no pânico de um cenário dantesco ¿ filas de refugiados carregando malas em meio a um lamaçal e vento gelado com chuva ¿ que o último grupo de brasileiros a deixar a Líbia, os 148 funcionários da construtora Queiroz Galvão, embarcou ontem num navio de bandeira grega atracado na cidade de Benghazi. A angústia, no entanto, foi prolongada por mais um dia, após o Itamaraty informar que a embarcação não deixaria o porto da segunda maior cidade do país até hoje por conta do mau tempo.
Segundo a assessoria de imprensa do Itamaraty, a previsão inicial era de que a embarcação deixasse o porto ontem. Às 21h no horário líbio (16h em Brasília) os passageiros já estavam embarcados, mas o mar agitado impediu a saída do navio. Até ontem à noite, a expectativa era de que embarcação zarpasse na manhã de hoje.
Na porta do navio, o carioca Roberto Roche, de 50 anos e gerente de Qualidade, Segurança e Meio Ambiente, assumiu uma função de guerra: coordenar a fuga dos brasileiros.
¿ Parecemos o Bope ¿ disse Roberto, que quando embarcou, gritou: ¿Caveira!¿.
Há três anos na Líbia, Roberto morava ao lado do quartel-general que foi palco da batalha de Benghazi.
¿ Achava a Líbia tranquilíssima. Melhor país para morar. Todo mundo de chinelo, ninguém queria nada com nada. E, de repente, o motorista líbio da empresa, que eu achava tranquilo, apareceu com uma AK-47, espumando de raiva contra Kadafi ¿ contou ele.
Marcos Jordão, diretor da Queiroz Galvão para África do Norte e Oriente Médio, transformou a casa dele, de 600 metros quadrados, num campo de refugiados. Na Líbia, ele comanda 140 brasileiros, 46 portugueses, três espanhóis e um tunisiano. E ainda contratou mil vietnamitas, que são mais baratos do que os brasileiros.
¿ Eu achava esse país uma segurança total. Na quarta-feira passada, achávamos que estava tudo sob controle. Mas no dia seguinte começaram os tiros, depois bombardeios. Abriguei 56 brasileiros na minha casa ¿ contou.
Grupo é bem instalado em navio grego
A retirada dos brasileiros foi um drama para a dentista casada com um líbio que trabalha na Queiroz Galvão, Carolina Mohamed, de 41 anos. Ela mora no país há 20 anos. Seus seis filhos ¿ de 4 a 17 anos ¿ não queriam sair, sobretudo Rajad, de 16, cujos colegas de classe foram às ruas para se manifestar e fazer a revolução.
¿ Eu não quero sair da Líbia. Eu vivi toda a minha vida aqui. Meus amigos estão todos aqui ¿ lamentou Rajad, com seu lenço islâmico na cabeça.
Carolina contou que deixou o marido líbio para trás, mas apenas temporariamente, a pedido dele: com todo o estresse na cidade e um ditador que ainda resiste, ele achou melhor que a mulher fosse para o Brasil com os filhos:
¿ Estou indo por causa do meu pai no Brasil. Não tenho medo de ficar aqui. Conheço o povo líbio.
Nascida em Manaus, Carla Costa, de 29 anos, é casada com um funcionário da empresa. Ontem, ela embarcou feliz. Tão feliz que jogou fora todas as suas batas muçulmanas, aliviada de retornar ao Brasil.
¿ Nunca na minha vida imaginei que eu fosse fazer parte disso tudo (uma revolução).
Os brasileiros foram bem instalados no navio. Sorte deles. Na embarcação ao lado, uma fila com milhares de chineses penava na chuva e no vento. E um grupo de Bangladesh não apenas não conseguia embarcar como viu seus patrões, os chineses, saírem do país sem pagar-lhes três meses de salário.
Aliviado com o embarque da última leva de brasileiros na Líbia, o embaixador em Trípoli, George Ney de Souza Fernandes, afirmou que a situação ainda está muito tensa, mas que o Itamaraty agora está mais tranquilo. Segundo ele, não há previsão para a saída de funcionários da embaixada.
¿ Passamos o dia trabalhando nos esforços para conseguir a retirada dos últimos brasileiros. Para nós, da embaixada, não temos nenhum projeto de deixar o país.
Enquanto o grupo de Benghazi aguarda ansiosamente a partida de seu navio, chegam hoje ao Brasil os primeiros funcionários da Odebrecht que trabalhavam na Líbia. A empresa não soube, contudo, informar o número exato de pessoas que devem desembarcar no país. A construtora também não fez previsão de quando repatriará todos os 114 que estão desde quinta-feira em Malta.
Na Líbia, o regime de Muamar Kadafi tem o costume de reter o passaporte de estrangeiros que vivem no país. Por isso, brasileiros que deixaram o território líbio nos últimos dias viajaram sem documentos. O Ministério das Relações Exteriores informou, no entanto, que ao chegarem a Malta e a Atenas os grupos serão recebidos por equipes do Itamaraty ou do governo local, que providenciarão ¿documentação e embarque imediato em voo fretado para o Brasil¿.