Título: Estados Unidos suspendem relações diplomáticas e vão sancionar Líbia
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Fonte: O Globo, 26/02/2011, O Mundo, p. 34
NOVA YORK. Os Estados Unidos anunciaram ontem a suspensão das atividades de sua embaixada na Líbia e a aplicação de sanções unilaterais contra o regime de Muamar Kadafi ¿ entre elas o congelamento dos bens do ditador e de seus familiares no país. Horas antes, o Conselho de Segurança da ONU havia recebido apelos incisivos do secretário-geral, Ban Ki-moon, e até do embaixador líbio, que, em um gesto dramático, implorou para que o órgão adote ações concretas para estancar a matança de civis. Uma resolução que deve ser aprovada hoje incluiria medidas como o congelamento de bens de Kadafi e de sua família, a proibição de que eles deixem a Líbia, o embargo de venda de armas e o possível pedido de abertura de processo contra Kadafi no Tribunal Penal Internacional.
Apesar das restrições americanas, o Departamento de Estado reiterou, num comunicado, que não rompeu relações diplomáticas com a Líbia ¿ e que sua missão no país seria reaberta quando as condições de segurança permitissem. Em Nova York, a reunião do Conselho de Segurança foi suspensa às 17h, e será retomada hoje às 11h. Segundo o secretário-geral, a decisão de recorrer ou não à ação militar ficará a cargo do conselho ¿ que este mês é presidido pela embaixadora do Brasil, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
¿ Este é o momento para ação decisiva. Este é um momento de definição, e a comunidade internacional precisa estar à altura da ocasião ¿ disse Ban, que se reunirá com o presidente dos EUA, Barack Obama, na segunda-feira, em Washington.
Uma versão preliminar da resolução apresentada pela França e pelo Reino Unido inclui a apresentação de denúncia contra Kadafi ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, por crimes contra a Humanidade. Diplomatas franceses informaram ter o apoio da Rússia ¿ restando então a China como único dos cinco países com direito de veto (França, Reino Unido, Estados Unidos, Rússia e China) que poderiam barrar essa decisão.
O secretário-geral defendeu a proposta de suspensão da Líbia do Conselho de Direitos Humanos da ONU, aprovada em Genebra, e informou que ela deverá ser submetida à votação da Assembleia Geral já no início da semana. Ban relatou estar recebendo informações constantes sobre novas mortes de inocentes, violações de direitos humanos, prisões indiscriminadas e emprego de soldados mercenários na Líbia. Segundo ele, a ONU já contabiliza 22 mil refugiados líbios na Tunísia e 15 mil no Egito. Ele exortou os países vizinhos, inclusive os europeus, a manterem as fronteiras abertas para receber os refugiados.
Segundo a embaixadora Maria Luiza Viotti, a convocação de uma reunião no sábado indica o sentido de urgência:
¿ A ideia é adotar medidas que possam ser focadas na interrupção da violência. O conselho tem uma influência sobre a atitude das lideranças, e creio que é muito importante que se manifeste.
UE anuncia embargo de armas, e Sarkozy sobe o tom
O chefe da missão líbia, Abdurrahman Mohamed Shalgham, ex-chanceler de Kadafi que até segunda-feira se dizia amigo do ditador, causou comoção no plenário ao pedir uma ¿resolução corajosa¿, uma reviravolta considerada pelo próprio Ban um momento histórico para a ONU. Shalgham foi abraçado e beijado pelos representantes das delegações de países árabes e africanos, e cumprimentado pelo secretário-geral.
¿ Não importa quantas pessoas sejam mortas, não importa quantas atrocidades sejam cometidas, não vamos nos entregar ¿ declarou Shalgham, depois de condenar as atrocidades do regime Kadafi contra civis.
O embaixador líbio surpreendeu logo no início de seu discurso, ao citar a justificativa do regime de um líder do Khmer Vermelho para exterminar um terço da população do Camboja, atribuindo a culpa ao próprio povo. Ele seguiu na linha crítica, se referindo com sarcasmo a massacres promovidos pelas tropas de Adolf Hitler, e atacou o próprio governo pela morte de civis e manifestantes pacíficos.
No início da semana, quando o vice-embaixador, Ibrahim Dabbashi, renunciou ao cargo, denunciando Kadafi, Shalgham se manteve fiel. Ontem, após seu discurso bombástico, quando os jornalistas lhe perguntaram o que o havia feito mudar de ideia, o embaixador disse:
¿ Nunca podia imaginar essa matança de gente! Quando um governo atira contra seu próprio povo, não pode continuar ¿ disse o embaixador, estimando que cerca de 90% dos diplomatas já abandonaram Kadafi.
Do outro lado do Atlântico, a União Europeia também anunciou um embargo de armas contra a Líbia e o bloqueio de todos os bens de autoridades do governo líbio em seu território. As restrições incluem a proibição da venda de qualquer equipamento que possa ser usado na repressão aos manifestantes. O acordo, que deve ser formalizado na segunda-feira, poderá impedir, ainda, que Kadafi e sua família tenham a entrada negada no território europeu.
Nas embaixadas líbias em Paris e na ONU, as bandeiras verdes do regime de Kadafi foram removidas e substituídas pelas flâmulas da era monárquica. A exemplo dos EUA, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, adotou um tom duro e, ao lado, do colega turco, Abdullah Gul, exigiu a renúncia do ditador líbio.
¿ O senhor Kadafi deve sair. Sobre uma intervenção militar, a França vai considerar qualquer iniciativa do tipo com extrema cautela e reserva.
Com agências internacionais