Título: Dia de fúria atrai multidões em mais sete países
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Fonte: O Globo, 26/02/2011, O Mundo, p. 34

AMÃ, BAGDÁ, CAIRO, MANAMA, NOUAKCHOTT, SANAA e TÚNIS. Milhares de pessoas marcharam no centro de Bagdá e em diversas cidades iraquianas por melhores condições de vida, em protestos que terminaram em violência, deixando 12 mortos. Enquanto os manifestantes praticamente paralisavam a capital iraquiana pedindo reformas, centenas de milhares de pessoas também marcharam contra o governo no Egito, Bahrein, Iêmen, Tunísia, Jordânia e Mauritânia em um novo ¿dia de fúria¿ no mundo árabe.

Nas mais violentas manifestações no Iraque desde o início da onda de protestos na região, confrontos entre as forças de segurança e as multidões deixaram dezenas de feridos. A repressão mais forte ocorreu em Mosul, ao norte de Bagdá, onde centenas clamavam por mais empregos. Para dispersar a multidão, policiais abriram fogo, matando dez pessoas e ferindo outras 15. Na província de Anbar, duas pessoas também foram baleadas e mortas durante protestos, enquanto no centro da capital, helicópteros militares sobrevoaram a Praça da Libertação.

Na praça, a multidão entoou: ¿não ao desemprego, não ao mentiroso (premier Nouri) al-Maliki¿. Manifestantes atiraram pedras e entraram em confronto com a polícia, que atacou o grupo com cassetetes. Ao menos seis membros da tropa de choque e 12 manifestantes ficaram feridos, segundo a polícia.

Tunisianos voltam às ruas pela queda do premier

Também terminou em confronto um protesto na Tunísia pela queda do premier Mohamed Ghannouchi, antigo aliado de Zine el-Abidine Ben Ali. Após um período de relativa calmaria no país, dezenas de milhares de tunisianos voltaram a desfilar ontem pelas ruas da capital. Carregando imagens do premier que o comparavam a Ben Ali, os manifestantes gritavam ¿fora Ghannouchi¿ quando a polícia atirou ao alto e lançou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a população.

¿ O único pedido que temos é o fim desse governo de transição ¿ afirmou a estudante Alia Soussi, de 23 anos. ¿ Nós esperamos que Ghannouchi entenda a mensagem.

Desde a renúncia de Ben Ali, os tunisianos já foram às ruas diversas vezes pedir a saída de ministros ligados ao ex-ditador. Mas Ghannouchi parece não pretender deixar o cargo, provocando temores de que a Revolução de Jasmim termine em fracasso. O mesmo temor acomete os egípcios, que voltaram ontem, em dezenas de milhares, à Praça Tahrir, no Cairo, para pedir a renúncia de três importantes ministros ligados ao regime de Hosni Mubarak.

Os manifestantes afirmaram que marchariam até o local toda sexta-feira enquanto o premier Ahmed Shafiq não deixasse o poder. Alguns egípcios empunhavam a bandeira da Líbia em apoio à oposição do país.

¿ Nós fizemos Mubarak renunciar, e faremos Shafiq renunciar ¿ disse Safwat Hegazy, da Irmandade Muçulmana.

Tropa de choque reprime passeata no Iêmen

A situação voltou a esquentar também no Iêmen, onde ¿ apesar dos apelos do presidente às forças de segurança para proteger os manifestantes ¿ a polícia disparou contra a multidão que protestava em Aden, ferindo 19. Outros milhares marcharam em diversas cidades do país, pedindo a renúncia do presidente Ali Abdullah Saleh, no poder há 32 anos. Um imã que conduziu a reza em Sanaa exortou os manifestantes a continuar a pressionar ¿até que o presidente saia¿.

¿ Saleh é um demônio que está nos levando de volta à Idade da Pedra ¿ disse o imã Abdullah Fatir em seu sermão.

Saleh ¿ um forte aliado dos americanos na luta contra a al-Qaeda ¿ já anunciou que deixaria o poder em 2013, mas suas promessas até agora não conseguiram acalmar os ânimos da população do mais pobre dos países árabes.

Já no Bahrein, onde a monarquia sunita havia declarado um dia de luto pelos sete mortos nas manifestações recentes, milhares de pessoas foram à Praça da Pérola, em Manama, pedir reformas. A marcha foi pacífica, e pedia mais democracia para o país de maioria xiita. Segundo a al-Jazeera, após os protestos, o rei Hamad ibn Isa al-Khalifa demitiu três ministros, sem dar detalhes sobre as pastas afetadas. Houve ainda pequenos protestos antigoverno em Amã, na Jordânia, e na capital da Mauritânia, Nouakhcott.