Título: A queda da Arábia Saudita mudaria o mundo
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Fonte: O Globo, 26/02/2011, O Mundo, p. 34

Há uma revolução em curso no Oriente Médio. Os jovens estão fortalecidos e confiantes de uma maneira nunca vista antes, e o que vimos na Tunísia, Egito, Iêmen, Bahrein e Líbia pode acontecer em outros países da região. Mas se a revolução tiver que parar em algum lugar, é provável que seja no deserto, nas portas da Arábia Saudita ¿ crucialmente, o maior fornecedor de petróleo do mundo.

Diferente da impressionante pobreza que vemos em Tunísia, Egito e outros países da região, os sauditas vão relativamente bem. Apesar de haver pobreza na Arábia Saudita, o governo investiu bilhões de dólares em gastos sociais. Não é uma surpresa que o retorno do rei Abdullah ao país ¿ que ficou três meses no exterior se recompondo de uma cirurgia de hérnia de disco realizada em Nova York¿ coincidiu com o anúncio que o governo saudita injetou US$36 bilhões adicionais em projetos públicos. Certamente, esse ¿timing¿ é o resultado do nervosismo, mas também é um método já testado (e aprovado) para manter os dissidentes tranquilos.

A estrutura da sociedade do reino também o torna menos vulnerável aos levantes a que temos assistido no Oriente Médio. Os principais órgãos do Estado saudita ¿ o governo e os líderes religiosos sunitas ultraconservadores ¿ estão fortemente unidos. Um contrato social entre esses dois poderes concorrentes existe para o benefício de ambos.

A elite de todos os campos do país já reforçou esse contrato social em momentos de instabilidade, com o rei Abdullah ¿ que é visto como um reformista ¿ conquistando a confiança dos conservadores ao se recusar a fazer mudanças radicais na sociedade saudita, em troca da exclusão feita pelas lideranças religiosas de grupos extremistas similares à al-Qaeda. Isso não significa que não há risco para o status quo. O levante árabe foi possível graças, em parte, ao chamado ¿efeito al-Jazeera¿, com a população comum sendo informada pelos novos meios de comunicação sobre corrupção e injustiças em suas próprias sociedades. A Arábia Saudita não escapou desse fenômeno.

O resto do mundo deveria estar prestando bastante atenção à situação no país e no resto do Oriente Médio. Se o regime da Arábia Saudita realmente cair ¿ um cenário improvável ¿ haveria um verdadeiro terremoto na economia mundial. Os dois maiores picos inflacionários na memória recente ocidental foram causados pela decisão da Opep de limitar sua produção de petróleo em resposta ao envio de armas americanas a Israel, em 1973, e em seguida, pela revolução do Irã, em 1979. A Arábia Saudita é hoje uma grande economia que lubrifica as rodas do resto do mundo. Muitos de nós pensamos que os sauditas são forte demais para caírem. Mas se mostrarem que estamos errados, o efeito no mundo seria devastador.

FAWEZ GERGES é diretor do Centro do Oriente Médio da London School of Economics e escreveu esse artigo para o ¿Independent¿