Título: Em Macaé, tráfico de drogas no rastro do petróleo
Autor: Alvarez, Regina
Fonte: O Globo, 27/02/2011, O País, p. 10/11

Cidade é uma das 30 com maior índice de homicídios de jovens

MACAÉ. Com vista para o mar existem duas Macaés. Uma fica na Zona Sul, é bonita e próspera, cheia de bons prédios e turbinada pelos negócios da Petrobras, pelo alto poder aquisitivo dos petroleiros e de alguns terceirizados que fazem parte dessa elite. Outra é a Macaé de Hélio dos Santos, que mora em Lagomar, uma das tantas favelas da Zona Norte, que abriga os apartados do primeiro grupo. Eles vivem em situação precária e convivem com a violência e o tráfico de drogas, mas não têm alternativa.

O clima na Macaé dos apartados é muito parecido com a periferia das grandes metrópoles, mas a cidade é de porte médio, tem perto de 200 mil habitantes e abriga o maior polo de petróleo e gás do país, que, nos últimos dez anos, trouxe riquezas e mazelas. Com os royalties, R$200 milhões em 2010, vieram o crescimento desordenado, a violência e as drogas.

Em dezembro, uma ação policial conjunta resultou na prisão do chefe do tráfico de drogas nas comunidades de Lagomar, Barretos e Cajueiros. Mauro Ribeiro, conhecido como Maurinho, também comandava a venda de entorpecentes em municípios vizinhos e é acusado do assassinato de um jovem de 19 anos.

Desde 1980, PIB do município cresceu 700%

No começo do mês, uma operação de busca e apreensão em Nova Holanda, uma das regiões mais perigosas de Macaé, resultou na troca de tiros entre policiais e traficantes e na morte de um jovem de 18 anos. No mapa da violência divulgado na sexta-feira pelo Ministério da Justiça, Macaé aparece entre os 30 municípios brasileiros com maior índice de homicídios de jovens. Foram 46 mortes em 2008 para uma população de 33 mil jovens. É o retrato dessas comunidades que crescem de forma espantosa e desordenada e já ocupam dois terços da cidade.

Um estudo da Consultoria Macroplan, divulgado em 2010, traçou um perfil de Macaé, comparando com cidades similares do Mar do Norte: a escocesa Aberdeen e a norueguesa Stavanger. A conclusão é que a capital brasileira do petróleo perde de longe em qualidade de vida e ganhos obtidos com a indústria do petróleo, pela falta de planejamento e de uma estratégia de crescimento ordenado.

O estudo dá a medida das desigualdades. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) municipal cresceu 700% desde 1980, a cidade assistiu a um crescimento de 322% na taxa de homicídios, que chegou a 85,9 ocorrências por 100 mil habitantes. Apenas 10% da população têm acesso a saneamento básico e a desigualdade de renda é elevada. Entre os 92 municípios do Rio de Janeiro, Macaé ocupa o 35º lugar em relação à diferença de renda entre os 10% mais ricos e a os 40% mais pobres, embora o PIB per capita seja um dos mais elevados, ficando em torno de R$37 mil.