Título: PIB menor não alivia a inflação
Autor: Beck, Martha; Spitz, Clarice
Fonte: O Globo, 02/03/2011, Economia, p. 25

Redução do crescimento para 5% este ano, como quer Fazenda, não deve segurar preços

Adesaceleração da economia brasileira este ano - dos 7,6% de expansão no ano passado, segundo projeções do mercado, para 5% em 2011 como pretende o governo - não será suficiente para conter a atual escalada da inflação, afirmam analistas. Enquanto economistas calculam que o Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pelo país) cresceu entre 7,4% e 7,8% no ano passado - o resultado oficial será divulgado amanhã pelo IBGE -, especialistas acreditam que a capacidade do país crescer sem pressionar os preços estaria entre 4% e 4,5%, números que estão alinhados com a percepção do Banco Central (BC), segundo indicações recentes da autoridade monetária. Ou seja, o chamado PIB potencial seria inferior aos 5% de crescimento defendido pelo Ministério da Fazenda.

Ao anunciar os cortes no Orçamento, de R$50,1 bilhões, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, classificou como exagerado o crescimento de 2011, e afirmou que o governo está tentando conduzir a economia "para um patamar mais sustentável de crescimento, que é em torno de 5%". No mercado, entretanto, já há estimativas de que o país vá crescer apenas 3,6% em 2011. E, mesmo considerando que o PIB vá subir bem menos este ano do que em 2010, as projeções para a inflação não param de subir. Segundo o último boletim Focus, do BC, o mercado já estima que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficará em 5,80% este ano - bem acima do centro da meta, de 4,5%.

Em 2010, maior alta desde 1986

Segundo o estrategista de investimentos para a América Latina do Banco WestLB do Brasil, Roberto Padovani, a equipe econômica deveria ser mais modesta.

- O PIB potencial é algo próximo a 4% ou 4,5%, mas a economia cresceu entre 7,5% e 8% em 2010. É muito acima do que pode. Tanto que o que se vê hoje é a falta de portos, aeroportos. O país está congestionado.

- O PIB potencial do país não é 5%. Ainda temos muita limitação de investimentos e gargalos para chegar a isso - afirma o economista-chefe do banco ABC Brasil, Luís Otávio Leal, para quem o PIB potencial do Brasil também está hoje entre 4% e 4,5%.

Segundo Leal, o país não terá condições nem mesmo de chegar ao seu PIB potencial em 2011. Isso porque as pressões inflacionárias estão vindo não apenas da atividade doméstica, mas de fatores externos como os preços de commodities e do petróleo.

- A inflação já está acumulada em torno de 6% (em 12 meses). O Brasil ainda vai ter que crescer abaixo de seu potencial por um tempo - disse Leal.

Caso o IBGE confirme amanhã um crescimento em torno de 7,5% em 2010, como preveem os analistas, será a maior expansão desde 1986, no Plano Cruzado, marcando a recuperação do Brasil depois da crise financeira global iniciada em 2008, que levou o país a uma retração de 0,6% do PIB em 2009.

Os analistas calculam, porém, que, no último trimestre de 2010, o país tenha crescido num ritmo mais lento, de 1% frente ao período anterior, já descontados efeitos sazonais. Economista do Itaú Unibanco, Aurélio Bicalho destaca que isso representa um crescimento anualizado em torno de 4%:

- O importante, neste momento, é que a economia cresça até um pouco abaixo do PIB potencial, pois alguns setores estão muito pressionados, como a mão de obra. Este é um bom patamar que começa a ser atingido, temos dados de financiamento, de consumo que confirmam isso.

Para 2011, a maior parte dos economistas prevê que o crescimento do PIB vai cair à metade. A LCA Consultores revisou para baixo a previsão do PIB para 2011, de 4,3% para 3,6%. A avaliação é que o "carregamento estatístico", ou seja, o quanto o ritmo de crescimento do quarto trimestre leva para o ano seguinte, será bem mais modesto.

É buscando uma acomodação que deixe o país numa trajetória de crescimento sustentável a longo prazo que os analistas recomendam inclusive um freio à estratégia federal de continuar capitalizando o BNDES. Eles consideram que esse tipo de medida é uma contradição com o aperto fiscal recém-anunciado, ainda que tenha como foco ampliar investimentos, ou seja, a capacidade de oferta da economia.

Investimento teria avançado 20%

Na prática, os analistas defendem que a prioridade de 2011 deve ser o combate à inflação.

- A equipe econômica acha que incentivar investimentos por meio do BNDES não pressiona a inflação. Mas a verdade é que isso acontece a curto prazo - diz Leal.

- Dar mais fôlego ao BNDES aquece a economia, é um gasto a mais. Se o que se deseja é conter a demanda, devia haver redução geral nas despesas. Não dá para buscar coerência nessa atitude do governo - disse o especialista em contas públicas Raul Velloso.

Em 2010, apesar de uma alta forte dos investimentos, os analistas lembram que o principal motor do PIB veio do consumo das famílias, amparado pela oferta de crédito e pelo bom desempenho do mercado de trabalho. Segundo a economista Alessandra Ribeiro, da consultoria Tendência, a chamada formação bruta de capital fixo (que inclui a construção civil e os investimentos feitos por empresas para ampliar sua capacidade produtiva) cresceu acima de 20% em 2010, recuperando-se da queda de 10,3% de 2009. Ainda assim, o consumo das famílias - com peso bem maior no PIB - foi o que mais contribuiu para o aumento da demanda em 2010, diz Alessandra. Ela calcula que os gastos da família tenham crescido 7,5%.