Título: ONU suspende Líbia sob protesto da Venezuela
Autor: Godoy, Fernanda
Fonte: O Globo, 02/03/2011, O Mundo, p. 37

Decisão por consenso retira país do Conselho de Direitos Humanos. Embaixadores batem boca na Assembleia

NOVA YORK. Por consenso, a Assembleia Geral da ONU aprovou ontem a suspensão da Líbia do Conselho de Direitos Humanos, ratificando recomendações unânimes feitas pelo conselho, em Genebra, na sexta-feira passada. É mais um gesto a reforçar o isolamento do ditador Muamar Kadafi que, após a votação, recebeu o apoio apenas da Venezuela do presidente Hugo Chávez, que considerou a decisão precipitada.

A defesa da proposta foi feita, em nome da Liga Árabe e da União Africana, pelo embaixador do Líbano, Nawaf Salam, e endossada por dezenas de outros países, entre eles o Brasil.

- Vamos nos erguer em defesa do povo líbio ao aprovar, por consenso, essa proposta. Quero expressar minha solidariedade ao corajoso povo líbio e minhas condolências às famílias dos que perderam a vida - disse Salam.

Chávez defende comissão para intermediar crise

Diante da leitura da lista dos mais de 50 países que copatrocinavam a suspensão da Líbia por abusos dos direitos humanos, a votação se tornou desnecessária. Ficou claro o consenso entre os 192 países-membros, uma quase unanimidade. Ainda houve um frisson quando a delegação da Venezuela pediu a palavra, mas o embaixador Jorge Valero só falou depois de anunciado o resultado.

- Nenhuma força estrangeira está autorizada a interferir em assuntos internos de um país - disse o embaixador venezuelano.

Valero prosseguiu, afirmando que os Estados Unidos estavam preparando sua máquina de guerra, e que o objetivo do Pentágono e do Departamento de Estado é invadir a Líbia e apoderar-se de suas reservas de petróleo.

- Seu propósito é claro: apropriar-se das riquezas e reservas estratégicas que estão depositadas na terra-mãe do povo líbio - disse Valero.

Imediatamente, a embaixadora dos Estados Unidos, Susan Rice, reagiu, rejeitando as acusações.

- É vergonhoso que um país-membro cujo histórico de direitos humanos fala por si mesmo use de maneira oportunista esta ocasião para difundir mentiras, medo e ódio - disse Susan Rice.

Mais cedo, o presidente Hugo Chávez adiantara que a Venezuela não condenaria o ditador líbio. Ele acusara os EUA de prepararem uma invasão ao país e propusera uma comissão internacional para mediar a crise líbia.

Antes da votação, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, fez uma nova exposição da gravidade da situação na Líbia, informando que o número de refugiados que cruzaram as fronteiras em direção ao Egito e à Tunísia já passou dos 110 mil, e aumenta a cada hora. Na sexta-feira passada, quando Ban se dirigiu ao Conselho de Segurança, o número era de 37 mil. Ele estimou em pelo menos mil as mortes de civis na Líbia e disse que a situação pode se deteriorar ainda mais, porque Kadafi mantém o controle da capital, Trípoli, e está bombardeando instalações militares no leste do país, base dos rebeldes.

Segundo as informações da ONU, milhares de estrangeiros continuam retidos na Líbia, impossibilitados de retornar a seus países.

EUA cogitam exílio para ditador

O secretário-geral afirmou que decidirá dentro de uma semana mandar um enviado especial à Líbia, para auxiliar na organização de ajuda humanitária e nas negociações para encontrar uma saída para a crise no país africano.

Os EUA considerariam o exílio como uma saída para Kadafi se isso detivesse a violência, disse mais cedo Susan Rice. Ela, no entanto, destacou a importância de que o regime preste contas sobre seus crimes.

Susan prometeu manter a pressão sobre Kadafi. Enquanto isso, outros países dão seguimento às sanções já aprovadas. A Áustria já tomou as primeiras medidas para congelar os bens de Kadafi, parentes e membros do governo líbio. Segundo o Banco Central austríaco, há US$1,66 bilhão de bens líbios em instituições financeiras no país. Ainda não está claro quanto disso pertence às pessoas na lista de sanções da União Europeia.

oglobo.com.br/mundo

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Seu propósito é claro: apropriar-se das riquezas e reservas estratégicas do povo líbio

Jorge Valero, embaixador da Venezuela

É vergonhoso que um país-membro use a ocasião para difundir mentiras, medo e ódio

Susan Rice, embaixadora dos EUA

Brasil afasta ação militar contra regime

NOVA YORK. Ao deixar a presidência do Conselho de Segurança da ONU, a embaixadora do Brasil, Maria Luiza Ribeiro Viotti, afirmou ontem que o emprego de novas medidas, inclusive militares, contra o governo da Líbia não está no horizonte da entidade.

- Não há discussão real sobre isso, o Conselho está focado na implementação da resolução aprovada na semana passada. Demos um sinal muito forte de que não se admite violência nessa escala contra civis.

Satisfeita com a votação unânime da resolução que impôs sanções ao ditador líbio, Muamar Kadafi, decretou o embargo de armas e remeteu a denúncia contra ele ao Tribunal Penal Internacional, a embaixadora admite que seria muito mais difícil obter consenso para uma ação militar. Sobre a eficácia das medidas, explicou que elas são dirigidas, em grande parte, "às pessoas que estão no círculo mais próximo de poder de Kadafi", para que entendam o isolamento de seu líder.

Ela contou ter recebido cumprimentos de vários colegas, como o embaixador da Alemanha, Peter Wittig, que consideraram sua atuação conciliadora fundamental para o êxito da votação. A embaixadora volta a ter como uma de suas maiores prioridades a questão da reforma do Conselho de Segurança, do qual o Brasil quer ser membro permanente. (F.G.)