Título: Manter Kadafi sob pressão e a unidade
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Fonte: O Globo, 03/03/2011, Opinião, p. 6
A Líbia está em guerra civil e, por isso, a situação lá é muito diferente das rebeliões populares que derrubaram os ditadores do Egito e da Tunísia. Nestes, as Forças Armadas mantiveram a neutralidade, desobedecendo ordens para reprimir os manifestantes que fizeram a Revolução de Jasmim (Tunísia) e da Praça Tahrir (Egito). Na Líbia, uma parte dos militares se mantém fiel ao ditador Muamar Kadafi, e o país está ameaçado de rachar ao meio, com a parte leste em mãos dos que lutam contra o regime e a oeste como baluarte do tirano.
Se, no caso do Egito, a mobilização popular, seguida da pressão diplomática externa, foi suficiente para afastar Hosni Mubarak, há 30 anos no poder, na Líbia diversos fatores possibilitam a Kadafi se agarrar ao trono de "rei dos reis da África", que mantém há 42 anos.
A comunidade internacional tomou decisões históricas para se colocar resolutamente a favor da liberdade, da democracia e dos direitos humanos, numa tentativa de reduzir a área de manobra do ditador líbio. Por exemplo, o Conselho de Segurança da ONU resolveu, por unanimidade, pedir a intervenção do Tribunal Penal Internacional para julgar Kadafi por crimes contra a humanidade - algumas fontes estimam em 2 mil o número de ativistas contra seu regime mortos nas últimas semanas. Foi a primeira decisão dos EUA que reconhece o TPI, de cujo tratado o país não é signatário.
Os fatos mostram que considerações políticas e estratégicas perdem peso diante da disposição demonstrada pela comunidade internacional para finalmente dar a importância devida à questão dos direitos humanos. Em decisão inédita, a Líbia foi expulsa do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em medida tomada por consenso no Conselho de Segurança. Até a China, sempre esquiva a ações nessa área, por ter telhado de vidro, apoiou a medida.
Em seu terceiro discurso desde que se iniciou a crise, Kadafi voltou a dar demonstrações de que vive num "mundo de fantasia", conforme comparou o "New York Times". "Estamos numa guerra sangrenta e milhares e milhares de líbios morrerão se os EUA ou a Otan entrarem. Estamos prontos para entregar armas a 1 milhão, 2 ou 3 milhões, e um novo Vietnã vai começar", afirmou o ditador líbio em Trípoli, como se não tivesse perdido áreas importantes do país, sofrido a deserção de grandes contingentes militares e não estivesse acuado pelos que se rebelaram contra sua ditadura.
A resistência de Kadafi impõe novo desafio à comunidade internacional. É preciso manter a coesão para tomar novas medidas que enfraqueçam o regime líbio. Diante da ameaça de veto da Rússia à ideia, ainda muito preliminar, de executar um bloqueio aéreo à Líbia, os membros do Conselho de Segurança devem continuar negociando até encontrar alternativas aceitáveis para todos. Ameaçaria o consenso atender ao pedido dos rebeldes para que as forças de Kadafi sejam bombardeadas por aviões ocidentais.
Diante da ameaça à integridade de milhares de líbios, e de milhares de estrangeiros ainda retidos no país, o modelo de ação para a comunidade internacional deve ser o Kosovo, administrado pela ONU após sua separação da Sérvia, e não o Iraque, invadido por EUA e Grã-Bretanha à revelia da ONU.