Título: Resistência de ditador preocupa rebeldes
Autor:
Fonte: O Globo, 05/03/2011, O Mundo, p. 25
Revoltosos ocupam um ponto estratégico e organizam esforço de guerra, mas perdem depósito de armas em Benghazi Deborah Berlinck BENGHAZI, Líbia. Rebeldes conquistaram ontem mais um ponto estratégico da Líbia: o complexo petrolífero de Ras Lanuf, segundo informaram à noite combatentes. Mas a TV estatal líbia negou. Se confirmada hoje a tomada de Ras Lanuf, será mais um passo dos rebeldes na direção do ditador Muamar Kadafi ¿ que continua controlando com mãos de ferro a capital, Trípoli, e promete lutar contra "esses terroristas" até o fim. Mas o destino do país continua incerto: a nação caminha para a derrubada de mais um ditador árabe ou para uma guerra civil? Os rebeldes acreditam que a derrubada de Kadafi é iminente. Mas muitos líbios já admitem que o ditador está resistindo mais do que se esperava. Dezenas de pessoas teriam morrido na Líbia, ontem, em confrontos ou incidentes. Um verdadeiro esforço de guerra começa a ser organizado no leste do país ¿ hoje quase todo tomado pelos rebeldes. Em Benghazi ¿ a segunda maior cidade do país, onde começou a revolta ¿ um imã anunciava para uma multidão na rua as últimas notícias sobre os confrontos nas cidades vizinhas. Da janela de um prédio, com um megafone, ele pedia: ¿ Estamos telefonando de Ras Lanuf, pedindo para que qualquer um de vocês que tenha armas, que parta para ajudá-los! Mas à noite, outra notícia abalou a cidade: um depósito de armas em Benghazi explodiu, matando pelo menos 17 pessoas, segundo médicos do hospital al-Jalaa. Uma jornalista do "Sunday Times", que estava no hospital quando chegaram os mortos e feridos, fez o seguinte relato: ¿ Eu mesma contei 12 mortos. Em alguns casos havia apenas pedaços de corpos. O médico Habib al-Obeidi disse que a explosão teria ocorrido quando pessoas entraram no depósito para pegar armas. Mas alguns acusaram as forças de Kadafi de bombardearem o local. Testemunhas falaram que houve uma primeira explosão, e que quando as ambulâncias e voluntários chegavam para socorrer as vítimas ocorreu um segundo estrondo, matando e ferindo muitos. Voluntários marcharam ontem nas ruas de Benghazi, já vestidos com uniformes de guerra e armados. Enfileirados como se estivessem num quartel, eles atravessaram as ruas da cidade que beira a costa do Mar Mediterrâneo, gritando, em coro: "Wuhoosh!" (monstros!). Trata-se de um exército cheio de vontade de lutar, mas praticamente sem nenhum treinamento. Jumaa Abnasser, um estudante de 19 anos, conta que foi treinado nos últimos dias num campo onde estariam sendo preparados outros 1.200 homens. Ensinaram a manejar fuzis Kalashnikovs e outras armas, além de a agir como parte de um time. ¿ Se Alá quiser, estou preparado. Quero lutar. Não tenho medo de morrer ¿ disse. Ao seu lado, outro estudante, Idris Mohamed, disse que poderia matar Kadafi com as próprias mãos. ¿ Minha pátria é a Líbia. Eu vou a Trípoli, posso até matar Kadafi! ¿ ameaçou. Entre os preparativos para combate e os protestos, os líbios rezam. Ontem, na principal rua de Benghazi, milhares de homens se ajoelharam no asfalto ou em tapetes colocados na rua, embalados por um imã, que conclamava: ¿ Levantem e olhem para a revolução! Esta é a revolução dos jovens líbios. Vocês, jovens, estão dando um grande exemplo para o mundo de sacrifício, dignidade e liberdade. Sejam sempre livres! E depois, como se dirigisse diretamente a Muamar Kadafi, o imã afirmou: ¿ As pessoas não gostam de você. Fora da nossa casa!