Título: O que fazer para parar o ditador da Líbia
Autor:
Fonte: O Globo, 05/03/2011, O Mundo, p. 27

Nicholas D. Kristof Em 1986, o coronel Muamar Kadafi deu uma entrevista a um grupo de jornalistas estrangeiras. Depois, ele convidou-as, uma por uma, para um quarto equipado apenas com uma cama e uma televisão e fez uma proposta a elas. Elas o rechaçaram e, após três rejeições consecutivas, ele entendeu a mensagem e desistiu. Mas o incidente mostra algo importante sobre o coronel Kadafi, que é válido lembrar hoje: ele é maluco. O "rei dos reis" da Líbia mistura delírios, ameaça, arrogância, uma atração pelo risco ¿ e a posse de toneladas de gás mostarda. Por isso, é crucial que os poderes mundiais, trabalhando com países vizinhos, como Egito e Tunísia, constantemente aumentem a pressão enquanto ele está vulnerável, para que deixe o poder o mais rapidamente possível. Seria contraproducente para soldados americanos e europeus desembarcarem em solo líbio ou começarem a bombardear o país, porque seguiria a lógica da narrativa de Kadafi, segundo a qual imperialistas estão tentando dividir a Líbia. A verdade é que, depois do Iraque, simplesmente não temos uma alternativa realista de invasão de outro país árabe com petróleo. Mas o que podemos fazer é continuar a pressionar o coronel Kadafi, demonstrar vontade e deixar claro que sua partida é apenas uma questão de tempo. Esta determinação não vai fazê-lo mudar de ideia, mas pode dividir mais os militares líbios. E muitos deles já estão hesitantes. No sábado passado, quando estava no Egito e parecia que o regime iria cair a qualquer momento, recebi uma ligação de Trípoli: um militar de alta patente líbio que havia recebido a ordem de atacar cidades tomadas por rebeldes estava, em vez disso, apoiando os rebeldes. O militar queria que eu divulgasse sua deserção ¿ juntamente com seu apelo a outros militares para fazerem o mesmo ¿ e ele já havia gravado um vídeo de sua deserção que eu poderia postar imediatamente no site do "New York Times". Fiquei extasiado, mas lhe perguntei o que havia feito para proteger sua família de represálias. Nada. Eu pedi ao oficial que escondesse sua família. Um pouco mais tarde, me disse que aceitaria o risco que sua família correria. Sugeri que ele pensasse mais uma vez, aí, com medo, o oficial adiou o anúncio de sua deserção, temporariamente. Nos dias que se seguiram, com o coronel Kadafi tendo ganho espaço em Trípoli, a deserção não mais parecia ser uma opção. Minha sensação é de que muitos militares estão assim: temem por si e suas famílias. Se os sinais do mundo exterior mostrarem que a queda de Kadafi é apenas uma questão de tempo, há muito mais chance de que oficiais arranjem formas de evitar caírem com seu líder. O envio de navios americanos para a costa da Líbia é um passo útil para mostrar determinação. Assim como as sanções. Uma zona de exclusão aérea teria um pequeno impacto sobre o conflito, mas seria um poderoso sinal para o Exército líbio se render. Poderíamos também tentar interromper a comunicação dos militares líbios. Uma solução possível para a crise, que está sendo discutida dentro da Líbia, é que Kadafi ¿ que não é, de fato, presidente ou primeiro-ministro ¿ se retire com seus filhos para sua cidade natal, Sirte, e deixe o poder na mão de seu antigo amigo Mohamed al-Zwai, que é tecnicamente o chefe de Estado. Ex-embaixador no Reino Unido, Zwai tem reputação de pragmático e pode ser capaz de reunir grupos e tribos rivais, unindo o país novamente, de uma forma mais democrática. É um tiro no escuro, mas vale a pena tentar ¿ e será possível apenas se Kadafi e seus amigos acreditarem que, de outra forma, vão sucumbir. NICHOLAS D. KRISTOF é colunista do "New York Times"