Título: Forças do ditador atacam em duas frentes
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Fonte: O Globo, 08/03/2011, O Mundo, p. 16

RAS LANUF, Líbia. As forças do ditador líbio, Muamar Kadafi, bombardearam ontem pesadamente as cidades de Zawiya e Ras Lanuf, enquanto se deslocavam em direção a esta segunda, num avanço rumo ao leste até então dominado pelos rebeldes. Cercada, Zawiya enfrenta a escassez de mantimentos, remédios e armas, e partes dela já estariam em mãos do governo, enquanto Misurata voltou a ser atacada.

O Exército de Kadafi também reafirmou o controle sobre Bin Jawad. Nesse cenário, nada no país indica que o confronto possa terminar em breve, mas os últimos combates deixam clara a vulnerabilidade dos rebeldes em relação aos ataques que vêm do alto.

Foram vários os bombardeios ontem sobre Ras Lanuf, com um deles atingindo um carro com uma família. Os ataques aéreos começaram ainda pela manhã, com os rebeldes disparando para o céu, muitas vezes sem a possibilidade de atingir os aviões. Um dos ataques atingiu um posto de controle rebelde, causando um número ainda não determinado de mortes. As tropas do ditador permaneciam nos arredores da cidade, embora não tenham feito movimento para entrar nela.

¿ Olhe como disparam nos aviões. Eles não têm experiência, liderança ou estratégia ¿ criticou um morador, apontando um rebelde e sua metralhadora.

Portos de Brega e Ras Lanuf são fechados O Exército estava avançando, ontem, pela estrada costeira a leste da cidade reconquistada de Bin Jawad, com pelo menos um caminhão e veículos armados, com o apoio de um avião, segundo testemunhas. Na véspera, as tropas de Kadafi tomaram a cidade, 50 quilômetros a oeste de Ras Lanuf, usando helicópteros, aviões, foguetes e tanques. Mas forças contrárias ao ditador afirmam que alguns combatentes estão no deserto, organizando uma nova ofensiva. O contra-ataque de ontem impossibilitou um avanço de uma força de 500 a mil combatentes rebeldes, que se dirigiam ao oeste do país, na esperança de chegar mais perto de Trípoli, principal bastião do ditador. Relatos indicam que os combates paralisaram os portos de Brega e Ras Lanuf, importantes terminais por onde a Líbia escoa a sua produção de petróleo. Além disso, Zawiya estava ontem novamente sob um forte ataque, sofrendo seu mais pesado bombardeio até agora. Segundo algumas fontes, os rebeldes podem ter perdido o controle da cidade. A 50 quilômetros da capital, Zawiya é considerada estratégica porque poderia ser usada pelos revoltosos como uma base de ataque a Trípoli.

Os tanques e soldados abriram fogo às 9h, expulsando os rebeldes da praça principal, segundo um morador que fugiu da cidade. ¿ Os tanques estão por todos os lados. O hospital está sem suprimentos. Há feridos que não têm para onde ir ¿ contou.

Misurata ¿ um enclave rebelde entre Trípoli e Sirta, a cidade natal de Kadafi ¿ também voltou a ser atacada. Na véspera, pelo menos 21 pessoas morreram e cem feridos foram levados a um hospital, que também foi atingido. Muitos eram tratados no chão por falta de espaço. A cidade, a 200 quilômetros a leste de Trípoli, é a maior do oeste sob controle das forças opositoras e está completamente cercada. Com 300 mil habitantes, ela já sofre com o desabastecimento.

Ontem, Jadallah Azous al-Talhi, um ex-primeiro-ministro líbio, apareceu na TV estatal lendo um comunicado destinado aos líderes rebeldes em Benghazi. Ele pedia que "dessem uma chance ao diálogo nacional para resolver a crise, para deter o banho de sangue e não dar uma chance aos estrangeiros de entrarem e capturarem" o país. Mas Ahmed Jabreel, assessor do líder rebelde Mustafa Abdel Jalil, respondeu: ¿ Qualquer negociação deve ser com base na renúncia de Kadafi. Não pode haver outra concessão.

Encontros de rebeldes com representantes do Ocidente Em Trípoli, o ministro do Exterior líbio, Moussa Koussa, denunciou contatos de França e Reino Unido com os rebeldes. ¿ Há uma grande conspiração contra a Líbia. Certamente há uma conspiração para dividir a Líbia. Parece que os britânicos anseiam pela era colonial ¿ insinuou. Jalil, chefe do governo interino no leste rebelado, estaria mesmo se encontrando com delegações de países europeus e discutindo a implantação de uma zona de exclusão aérea, contou uma fonte em Benghazi. A fonte não quis revelar quais os países, mas disse que entre os assuntos conversados estariam bombardeios a bases de onde as forças do governo lançam ataques contra os rebeldes. Inclui quadro0: ofensiva dupla de Kadafi