Título: Egito é a prioridade
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Fonte: O Globo, 08/03/2011, O Mundo, p. 16

Com a terrível carnificina na Líbia, as chamas da revolução no Iêmen e no Bahrein, e protestos por mudanças políticas na Jordânia e no Marrocos, há o perigo de os Estados Unidos e a Europa perderem de vista o que ainda deve ser a nossa maior prioridade na região: ajudar o povo do Egito completar sua transição para a democracia. Por que o Egito é tão importante? Porque é o coração do mundo árabe. Foi o berço do panarabismo sob a liderança de Gamal Nasser, a pedra angular da paz no Oriente Médio sob o comando de Anwar Sadat. Com mais de 80 milhões de habitantes, tem uma grande e vigorosa sociedade civil, é ousado, tem uma mídia independente, um vasto conjunto de forças políticas e um judiciário respeitado. Se o Egito conseguir fazer a transição para a democracia, vai liderar o caminho de uma nova era para o mundo árabe. Se a ditadura voltar ao Cairo, é improvável que o resto da região prossiga. A primavera árabe vai viver ou morrer no Egito. Egípcios estão orgulhosos e não querem uma democracia made in America. Em particular, temos de evitar ditar que tipos de grupos poderão participar do processo democrático no Egito. Mas há importantes tipos de ajuda que podemos oferecer ¿ sobretudo, a ajuda econômica. O que a maioria dos egípcios quer de nós é uma assistência inteligente e bem orientada. Aqui estão as ações que podem ser tomadas: Perdão da dívida: o Egito deve bilhões de dólares aos EUA e à Europa. Essa dívida deve ser perdoada ou, pelo menos, reduzida. Livre comércio: o governo (George W.) Bush chegou perto de iniciar as negociações de livre comércio com o Egito em 2005, mas recuou por causa da repressão de Hosni Mubarak a adversários políticos. Repensar o pacote de ajuda dos EUA: o governo pediu para o próximo ano fiscal o mesmo auxílio dado antes da queda de Mubarak. Embora faça sentido dar a um Egito rumo à democracia tanto quanto demos a um regime autoritário, este não é o momento para a política de piloto automático. Investimento privado: os senadores John McCain e Joseph Lieberman recentemente retornaram do Egito com uma mensagem clara: os egípcios precisam e querem que as empresas estrangeiras invistam em seu país. Nomear um czar especial para a transição no Oriente Médio: para supervisionar todos esses esforços, o governo vai precisar de uma pessoa de muita força na Casa Branca. O governo dos EUA não está preparado para gerenciar este processo. Se a primavera árabe terá êxito ou fracassará, isso está nas mãos dos povos da região. Mas não é desculpa para os EUA e outras nações democráticas não ajudarem. Os EUA devem se certificar de que vão ajudar na transição em curso. A história não será boa se estragarmos esta oportunidade. ROBERT KAGAN é colunista do "Washington Post". MICHELE DUNNE é pesquisadora do centro de pesquisas Carnegie Endowment