Título: Otan faz ameaça a Kadafi
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Fonte: O Globo, 08/03/2011, O Mundo, p. 16
BRUXELAS e WASHINGTON Com a intensificação dos ataques aéreos e alimentos já faltando em cidades cercadas pelas forças de Muamar Kadafi, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) juntou-se à pressão sobre o ditador líbio, advertindo que a comunidade internacional não ficará de braços cruzados diante de um massacre no país. A declaração, que sugere a possibilidade de uso de força contra Kadafi, não foi um sinal isolado: horas depois, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que potenciais ações militares estavam sendo estudadas junto com a aliança; França e Reino Unido informaram estar elaborando um anteprojeto na ONU para a criação de uma zona de exclusão aérea; e a própria Otan passou a vigiar o território líbio 24 horas por dia com aviões-espiões, no que pode ser a preparação para uma ação militar.
Se Kadafi e seu Exército continuarem atacando a população, não posso imaginar que a comunidade internacional ficará olhando - avisou o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, que se disse indignado com os últimos acontecimentos. Muita gente em todo o mundo se verá tentada a dizer: vamos fazer algo para deter o massacre. Ontem, a imprensa árabe circulou rumores de que Kadafi já estaria cogitando deixar o poder. Segundo a TV al-Jazeera, do Qatar, o ditador teria oferecido ao Conselho Nacional Líbio ? formado pelos rebeldes ? reunirem-se no Parlamento para preparar o caminho de sua saída, desde que sua renúncia fosse acompanhada por certas garantias. A proposta, segundo a TV, não foi aceita. Um porta-voz do Conselho desmentiu que os rebeldes tivessem recebido tal oferta. Por sua vez, os jornais "Asharq al-Awsat", de Londres, e "al-Bayan", dos Emirados Árabes, disseram que Kadafi estaria buscando um refúgio fora da Líbia.
A Líbia será o tema dominante na reunião dos 28 membros da Otan, marcada para depois de amanhã, em Bruxelas. Rasmussen afirmou que a organização estava elaborando "um plano de contingência", que pudesse ser posto em operação rapidamente se necessário, mas ressaltou que a aliança só atuará a pedido da ONU. Sua declaração foi reforçada horas depois por Obama, que assegurou que a Otan avalia "potenciais ações militares".
-Enviamos uma mensagem muito clara ao povo líbio, de que vamos apoiá-lo diante da violência injustificada e da contínua supressão dos ideais democráticos que temos visto ? sustentou Obama, que ontem autorizou US$15 milhões em ajuda humanitária para os refugiados.
A própria Casa Branca admitiu também que uma das opções cogitadas pelos EUA é armar os rebeldes, ou melhor, "prover assistência militar", explicou o porta-voz Jay Carney.
Algumas decisões de ontem mostram que o cerco internacional a Kadafi está cada vez mais apertado.
A Otan decidiu aumentar os voos de vigilância com aviões Awacs de dez para 24 horas por dia. A expansão já é parte do planejamento de uma possível ação militar. Com um radar capaz de cobrir 300 mil quilômetros quadrados, as aeronaves vão permitir "uma imagem mais precisa do que está acontecendo nessa parte do mundo", disse o embaixador americano na Otan, Ivo Daalder.
O Reino Unido e a França, por seu lado, já trabalham num anteprojeto de resolução para impor uma zona de exclusão aérea a ser apresentado ? possivelmente esta semana, segundo fontes ? ao Conselho de Segurança da ONU. Eles devem enfrentar a resistência da Rússia, que ontem se opôs a qualquer intervenção militar externa. Como membro permanente no conselho, a Rússia tem poder de veto.
A ideia, no entanto, ganhou força ontem, após o anúncio do apoio de países do Golfo Pérsico, que pediram uma reunião urgente da Liga Árabe.
A declaração de apoio a uma zona de exclusão aérea vem num momento em que os rebeldes ? que, em geral, lutam com artilharia leve e sem treinamento ? estão se vendo bloqueados, sob uma chuva de bombas. Em entrevista à TV francesa, Kadafi fez um alerta velado à Europa. Ele disse que a Líbia tem um papel vital em bloquear a imigração ilegal de pessoas da África Subsaariana. ? Há milhões de africanos que poderiam usar o Mediterrâneo para ir à França ou à Itália, e a Líbia desempenha um papel na segurança do Mediterrâneo ? disse.