Título: Violência nas estradas é tragédia nacional
Autor:
Fonte: O Globo, 10/03/2011, Opinião, p. 6

Se um Boeing lotado de passageiros tivesse caído, sem deixar sobreviventes, em algum ponto do Brasil entre sábado e a Terça-Feira Gorda, o país estaria a esta hora chorando uma tragédia. O acidente aéreo não aconteceu, mas nesse mesmo período as estradas brasileiras foram palco de uma desgraça de igual dimensão. Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, entre o início e o fim do carnaval 189 pessoas morreram em acidentes nas rodovias federais, número que corresponde à lotação de um 737-800. Mais grave ainda: o levantamento cobre apenas as vias federais, somente 25% da malha nacional. Contabilizadas as estradas estaduais e municipais, o panorama é mais assustador: o especialista em logística e transporte Paulo Fleury, da Copead/UFRJ, estima que o trânsito brasileiro mate a cada ano 36 mil pessoas, cerca de cem por dia ou um grande acidente aéreo a cada três dias.

Os números, por si, são eloquentes, pois retratam o carnaval mais violento em seis anos (e ainda podem crescer mais até o fechamento definitivo da estatística). Mesmo assim, o aumento do total de óbitos já é 15% superior ao do ano passado, quando 143 pessoas morreram em acidentes de trânsito nas rodovias federais. A quantidade de pessoas mortas este ano em razão da violência nas estradas superou a do carnaval de 2007, quando ainda não estava em vigor a proibição da venda de bebidas alcoólicas nas vias da União.

Estatísticas funestas, com tópicas variações quantitativas, costumam acompanhar o balanço do movimento de veículos ao fim dos feriadões. Mesmo fora dos períodos de festas, a violência faz cada vez mais vítimas em estradas ou vias urbanas do país. Registre-se que há ações positivas em curso para tentar mudar tal realidade, como a adoção do Código de Trânsito Brasileiro, em 1998, e as operações da Lei Seca para inibir a mortal combinação de álcool e volante. São, no entanto, iniciativas que, isoladamente, não têm como mudar essa mórbida realidade.

Embora disponha de um código de trânsito com abrangência nacional, o Brasil não tem uma política padronizada para o setor, tanto no que diz respeito à infraestrutura viária quanto à aplicação da legislação. No Rio, por exemplo, tornaram-se constantes as blitzes da Lei Seca, praticamente inexistentes, no entanto, em outros estados. Minas, cujas atividades econômicas dependem do transporte rodoviário de cargas, tem uma das malhas em pior estado de conservação do país. Os órgãos de fiscalização não dão conta de atribuições como o controle do número de horas trabalhadas ininterruptamente por motoristas de caminhão, 90% das balanças não funcionam, e por aí vai.

Assim como tem conseguido dar respostas adequadas ao flagelo da criminalidade, de que são bom exemplo as bem-sucedidas políticas de segurança no Rio de Janeiro e em São Paulo, a sociedade precisa também equacionar as funestas demandas da violência no trânsito. As derrotas impostas ao crime organizado, no plano da segurança pública, são evidência do que se pode conseguir com planejamento e ações coordenadas. Um caminho que deveria inspirar as autoridades de trânsito para reduzir a números palatáveis tragédias que se reproduzem a cada dia no país.