Título: Na era da internet, professores se armam contra plágio feito por alunos
Autor: Ribeiro, Marcelle
Fonte: O Globo, 13/03/2011, O País, p. 4

Cresce apresentação de trabalhos copiados, o que alarma escolas no país

PROFESSOR DA FGV e da USP, Ronaldo Macedo usa softwares para detectar plágio nos trabalhos entregues pelos alunos. Também na USP, Cláudia Pereira já reprovou um terço da turma por causa das cópias

SÃO PAULO. A facilidade que estudantes têm encontrado na rede mundial de computadores para plagiar textos alarma cada vez mais os professores, que buscam mecanismos para detectar trabalhos copiados da internet. Já há professores que começam a análise dos textos dos alunos com uma busca das frases na internet e até em softwares especiais.

Se sites como o Google ajudam os alunos a encontrar textos sobre o tema pesquisado, eles também auxiliam os professores a identificar o plágio. A professora de pedagogia da Universidade de São Paulo (USP) Cláudia Pereira Vianna diz que busca no Google trechos de quase todos os trabalhos que recebe dos alunos:

¿ Eu começo lendo e já vou colocando (um trecho) entre aspas e fazendo uma busca no Google. E é impressionante como aparece. E nunca é de uma fonte única. Os alunos costumam copiar um pedaço de um autor, um pedaço de outro e colar no seu trabalho.

A rotina de correção de Cláudia é mantida apesar de os casos de cópia indevida em suas turmas terem caído desde que, há cerca de cinco anos, ela reprovou cerca de um terço de uma classe de 60 alunos por plágio. A professora passou a ter uma conversa sobre o assunto no início de cada semestre e a avisar que efetivamente lê todos os trabalhos.

Há menos de um mês, um caso no meio acadêmico chamou a atenção no Brasil. O envolvido foi um professor demitido da USP, autor de uma pesquisa considerada plágio de estudos de cientistas do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Na USP, programa compara resposta dos alunos

A preocupação de algumas universidades tem feito com que utilizem inclusive softwares específicos para detectar plágio. A Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas de São Paulo adotou, em 2009, um sistema em que os alunos mandam todos os trabalhos digitalizados para uma plataforma, que compara os conteúdos recebidos e checa se um aluno copiou o trabalho do outro. Depois, um software chamado Safe Asign analisa se os textos foram copiados de conteúdos disponíveis no banco de dados do Google do Microsoft Live Search.

Professor de Direito da FGV-SP, Ronaldo Porto Macedo Júnior elogia o sistema, que ilumina os trechos suspeitos e mostra percentual de semelhanças:

¿ Facilita o trabalho do professor.

Macedo, que também dá aula na USP, usa na universidade pública um programa gratuito disponível na internet chamado Ferret, para comparar as respostas dos alunos nos trabalhos semanais pedidos:

¿ Já ocorreu de, quando eu era orientador da Escola Superior do Ministério Público, um aluno abrir aspas para citar um artigo de uma professora de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul na página 3 e só fechar na página 30.

Professora de Pós-Graduação de Educação, Arte e História da Cultura do Mackenzie, Maria de los Dolores Jimenez Peña diz que os professores devem ficar atentos aos casos em que os alunos se apropriam de textos em língua estrangeira:

¿ Já aconteceu de um aluno pegar uma tradução tosca feita pelo tradutor do Google.

Professores do ensino médio também têm se preocupado. Walter Alves, que dá aula de História no colégio paulista CPV, diz que tem o hábito de checar os trabalhos na internet.

¿ Isso dobra o tempo gasto na correção ¿ afirma.

Para o professor Ronaldo Macedo Júnior, a raiz do problema vai além da preguiça:

¿ Muitas vezes os alunos fazem seus trabalhos, não os recebem corrigidos e perdem o interesse. Se perceber que ninguém vai fazer nada, copia e pronto.

Carolina Fialho, coordenadora do Diretório Central dos Estudantes da Unicamp e aluna do curso de Ciências Sociais, concorda com o professor:

- A preocupação com o mérito, com a nota, é muito forte entre os estudantes, que se preocupam mais com o resultado quantitativo do que com a aprendizagem.

Advogados especializados em Direito Autoral e em Direito Penal afirmam que normalmente os casos de plágio são resolvidos internamente pelas instituições. Quando os casos chegam à Justiça, seguem na esfera Civil e dificilmente são punidos criminalmente.