Título: O que está na agenda de Obama e Dilma
Autor: Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 13/03/2011, O País, p. 14

POSSÍVEIS AC0RDOS

PREVIDÊNCIA: Cidadãos brasileiros que já contribuem com a Previdência nos EUA poderão aproveitar o tempo de serviço para fins de aposentadoria no Brasil. O mesmo se aplicará aos cidadãos americanos que vivem aqui.

SATÉLITE: Brasil e EUA construirão, em parceria, um satélite de monitoramento de precipitações, o GPM (sigla em inglês para Medida de Precipitação Global).

MICROCRÉDITO: O Brasil passará a experiência em microcrédito e crédito consignado, considerados por Obama importantes para estimular a economia americana. Em contrapartida, os EUA poderão transferir know how em negociações coletivas de trabalho e agilização de procedimentos jurídicos.

PATENTES: Os dois países negociam memorando de entendimento para a troca de informações e harmonização sobre suas respectivas legislações de patentes e propriedade intelecutal.

PAÍSES POBRES: Brasil e EUA trabalharão pelo desenvolvimento de nações menos favorecidas, com destaque para as da África e do Caribe.

ETANOL: Os dois países vão retomar a parceria na pesquisa e produção de combustíveis de fontes renováveis, como o biodiesel e o etanol.

VISTOS: Os dois governos tentavam, até o fim da semana passada, chegar a um acordo para simplificar a concessão de vistos.

TEMAS EM DEBATE

IRÃ: Tema delicadíssimo. A área diplomática brasileira está magoada com os EUA, que não reconheceram o acordo assinado por Brasil, Turquia e Irã, em meados de 2010, sobre a política nuclear do país persa. Um dia após o anúncio do tratado, que levou o ex-presidente Lula a Teerã, a secretária de Estado, Hillary Clinton, propôs ao Conselho de Segurança da ONU sanções contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad. O governo brasileiro argumenta que o próprio Obama havia aprovado, antecipadamente, os termos do entendimento.

CRISE NO MUNDO ÁRABE: A situação no mundo muçulmano e o bom trânsito do Brasil, classificado como "interlocutor confiável" pelas mais variadas tendências mundiais, farão parte da agenda. O presidente da Líbia, Muamar Kadafi, disse que queria o governo brasileiro como observador da crise, junto com a União Africana e a Organização da Conferência Islâmica. Os EUA defendem intervenção militar; o Brasil, solução pacífica e diplomática.

CONSELHO DE SEGURANÇA: Há intensa negociação entre as duas diplomacias para chegar a um consenso sobre o que constará da declaração final a respeito da visita de Obama sobre a candidatura do Brasil a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. A Casa Branca sabe que é importante Obama dizer algo simpático a respeito no encontro com Dilma, uma vez que o presidente americano disse recentemente que considera a Índia um bom candidato. Brasil, Índia, Japão e Alemanha formam o G-4 e defendem reformas na ONU.

CAÇAS: Desde que assumiu, Dilma tem sido procurada por autoridades americanas de diversas áreas, animadas com o fato de ter sido suspenso o processo de compra de caças pela FAB.

BOLIVARIANOS: Obama e sua equipe querem saber como Dilma lidará com os líderes bolivarianos: Hugo Chávez, da Venezuela; Raúl Castro, de Cuba; Rafael Correa, do Equador; Evo Morales, da Bolívia; e Daniel Ortega, da Nicarágua. A expectativa é que o presidente americano ressalte a liderança do Brasil na região e entre países em desenvolvimento. Deve destacar o fato de o Brasil ser o único integrante do Bric (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia e China) situado nas Américas. Apelará às semelhanças, que vão do regime democrático a aspectos culturais.

HONDURAS: Persiste a divergência sobre as eleições de Honduras, no fim de 2009. A Casa Branca reconheceu o novo presidente, Porfírio Lobo. O ex-presidente Lula, não. Resta saber o que Dilma fará.

CHINA: Os EUA ensaiaram algumas vezes pedir o apoio do Brasil na OMC para uma ação contra a China por causa do câmbio. Os dois países discutem estratégias conjuntas para competir com os chineses em terceiros mercados. Dilma deverá concordar com esse raciocínio, mas fará questão de lembrar que, após uma década de superávits, o intercâmbio comercial foi desfavorável ao lado brasileiro, com déficits de US$4,4 bilhões em 2009 e US$7,7 bilhões em 2010. Por que não comprar mais do Brasil?, perguntará Dilma a Obama.

DOHA: O relançamento da Rodada de Doha, na OMC, é assunto obrigatório. Os negociadores dos dois países protagonizam, na OMC, nova briga causada por um velho motivo: os EUA querem abertura do mercado brasileiro para bens industrializados e na área de serviços em geral. Com o G-20, bloco formado por países em desenvolvimento, o Brasil afirma que a oferta dos ricos em redução de tarifas para produtos agropecuários é totalmente insatisfatória.

INVESTIMENTOS: O Brasil é um dos principais destinos dos investimentos americanos no mundo. Empresários dos dois países serão convidados a participar de uma reunião com Dilma e Obama. A presidente brasileira falará do PAC, da Copa do Mundo de 2014, do pré-sal e das Olimpíadas de 2016, no Rio. Obama chamará para o encontro de cúpula CEOs de empresas dos setores financeiro, de bebidas e de comunicações, entre outros.

PIRATARIA: Tema espinhoso. Por mais que o governo brasileiro faça ou tenha feito para combater o comércio de produtos pirateados e falsificados, o avanço dos chineses no mercado interno por vias ilícitas cresce. Preocupados com patentes, principalmente em medicamentos e audiovisual, os EUA pressionam o Brasil e esperam avanços maiores.

IMIGRANTES: Formas de conter a imigração ilegal de brasileiros nos EUA e o tratamento recebido pelos cidadãos do Brasil naquele país também entrarão na agenda. Obama deverá lembrar que assumiu o compromisso de modernizar a legislação e o modelo de imigração atuais.

MEIO AMBIENTE: O aquecimento global será mencionado na declaração final do encontro entre Dilma e Obama. Os dois devem citar medidas tomadas para reduzir emissões de gases poluentes.