Título: Japão ensina o que é Defesa Civil
Autor:
Fonte: O Globo, 12/03/2011, Opinião, p. 6

O Japão deu ao mundo a palavra tsunami, que significa "onda no porto". Situado no chamado Círculo de Fogo do Pacífico - um arco de áreas vulcânicas onde ocorrem 90% dos terremotos -, o país sofre mil tremores por ano. Tudo isso o levou a investir pesadamente no mais eficiente sistema de monitoramento, prevenção e socorro do mundo, de forma a reduzir ao máximo o número de vítimas e os danos causados por essas catástrofes.

Todo esse sistema foi posto à prova pelo terremoto de 8.9 graus na escala Richter - o maior jamais registrado no Japão e um dos cinco mais fortes no mundo desde 1900 - seguido de uma tsunami que devastou áreas da costa nordeste. Seu poder de destruição foi quase 8 mil vezes mais forte que o do terremoto na Nova Zelândia no mês passado. A energia liberada se aproxima de um mês de consumo nos EUA. Embora as circunstâncias possam diferir enormemente, uma comparação com terremotos japoneses no passado dá uma ideia do progresso obtido no esforço para limitar os danos. O maior tremor registrado anteriormente foi de 8.3 graus em 1923, em Kanto, com 143 mil mortos. O de 1995, na cidade de Kobe, densamente povoada, teve 7.2 graus e matou 6.400 pessoas. Ainda é cedo para calcular o número de vítimas do terremoto de ontem, mas seguramente ele ficará muito abaixo do de Kobe.

A maior prova do acerto das autoridades japonesas em investir na segurança da população é a certeza de que, fosse em outro país menos preparado, o desastre teria proporções inimagináveis. Em 2008, a província chinesa de Sichuan foi atingida por um terremoto de 8 graus, que matou 70 mil pessoas. Muitas crianças ficaram soterradas em escolas frágeis, em consequência do desvio de verbas por funcionários corruptos. Além da corrupção, a pobreza cria enormes problemas para prevenir catástrofes. O terremoto do ano passado no Haiti, de 7 graus, destruiu a capital, Porto Príncipe, e matou mais de 200 mil pessoas. A precariedade do sistema de alerta no Oceano Índico, depois corrigida, foi trágica para os países atingidos pela tsunami de 2004 após tremor submarino de 9.1 graus: 230 mil mortos.

No Japão, o Serviço de Alerta para Tsunamis foi criado em 1952. Quando ocorre um terremoto, mensagens sobre magnitude e localização vão imediatamente ao ar na rede nacional de TV. Na maioria das cidades, informações são transmitidas à população por alto-falantes. Nas escolas, as crianças são ensinadas a como proceder em caso de tremores. Toda a população recebe instruções sobre para onde se dirigir. Nas grandes cidades, os edifícios são construídos de modo a "balançar", evitando desmoronamentos. Se o tremor atingir certa magnitude, usinas nucleares são automaticamente desligadas e trens-bala deixam de circular.

O Rio e municípios da serra fluminense terão seu grande teste no início de 2012. Há décadas, a ocupação desordenada de encostas e margens de rios resulta em catástrofes nos temporais de janeiro, fevereiro e março. No dia 11 de janeiro passado, choveu em 24 horas o esperado para todo o mês no Estado do Rio. Mais uma vez órgãos públicos e comunidades estavam despreparados. O resultado foi a maior tragédia na região, com mortos (cerca de mil), desaparecidos, desabrigados e danos à economia de sete municípios proporcionalmente maiores do que os registrados agora no Japão, país que ensina ser possível reduzir significativamente tais estragos.