Título: Dilma ensaia aproximação de sindicatos
Autor:
Fonte: O Globo, 12/03/2011, Opinião, p. 6
Depois de experimentarem, no governo Lula, as doces vantagens pecuniárias de serem sócios privilegiados do poder, com acesso franco aos cofres do Tesouro - a atuação do pedetista Carlos Lupi no Ministério do Trabalho é emblemática -, os sindicatos parecem ressabiados com o estilo de governar de Dilma Rousseff. Mais formal, a presidente dá sinais de querer estabelecer um relacionamento mais republicano, no sentido sério e não vulgar do termo, com essas corporações.
No encontro de ontem em Brasília, houve claro esforço de Dilma para se aproximar de lideranças que alvejaram o governo com críticas até deselegantes, como as do Deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), nos embates em torno do salário mínimo. Na verdade, foi um teste a que sindicalistas submeteram a presidente, superado com êxito por ela: conseguiu aprovar no Congresso a lei que formaliza a regra de reajuste do salário mínimo, sem recuos, e ontem confirmou, perante as centrais, o ajuste da tabela de recolhimento do imposto de renda pelo centro da meta de inflação, 4,5%. Outro ponto para o governo, por ter resistido às pressões para indexar o recolhimento do imposto.
Ainda é cedo para uma conclusão, mas pelo menos a conjuntura econômica força Dilma a não ser tão condescendente quanto o Palácio foi principalmente nos últimos quatro anos. E se as promessas de evitar o descontrole da inflação forem cumpridas à risca - como precisam ser -, novas rusgas poderão surgir. A lei do salário-base já garante um aumento percentual de dois dígitos no ano que vem, por considerar a taxa de 7,5% de crescimento do PIB mais a inflação deste ano, estimada entre 5,5%% e 6,5%. Mas tensões deverão ocorrer no front das negociações com sindicatos do funcionalismo, bastante beneficiados na Era Lula, mas sem chances de continuarem a avançar sobre o bolo das receitas públicas, se de fato for para valer - como é preciso - a política de austeridade fiscal. Afinal, a folha de servidores, uma gigantesca conta de R$180 bilhões anuais, é um dos itens mais pesados do Orçamento.
O gesto do governo Dilma de regulamentar a lei aprovada na gestão Lula para incluir empregados nos conselhos de administração de estatais pode ter simbologia política, mas de escasso efeito prático. Pois, nestes últimos oito anos, as maiores estatais já ficaram mesmo sob o controle de corporações de sindicalistas, assim como respectivos fundos de pensão.
Mais importante que isto é saber se o governo manterá a política lulista de cessão de parcelas da máquina pública a agrupamentos políticos, de sindicalistas ou de organizações ditas sociais, como se fossem capitanias hereditárias. Críticas que o líder máximo do MST, João Pedro Stédile, começa a fazer são sintomáticas. Não por acaso elas ocorrem quando o governo dá demonstrações de querer acabar, ou ao menos reduzir, o aparelhamento no Incra, causa de prejuízos para o contribuinte e a própria ordem pública, porque recursos federais costumam ser desviados para financiar invasões e outras ilegalidades. Seria um avanço se Dilma Rousseff engavetasse o modelo de cooptação a qualquer preço de sindicatos e outros agrupamentos adotado nos últimos oito anos.