Título: O Paulinho é reclamador, mas faz parte
Autor: Gois, Chico de ; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 12/03/2011, O País, p. 3

BRASÍLIA. Inflexível na imposição do índice de 4,5% para a correção da tabela do Imposto de Renda, a presidente Dilma Rousseff usou artifícios sedutores para conquistar os líderes dos trabalhadores, que saíram do encontro no Planalto caídos de amores pela nova companheira. Dilma não rejeitou outras reivindicações da extensa pauta das centrais, prometendo que serão encontradas alternativas para cada pleito. Mas a arma decisiva, segundo os sindicalistas, foi o convite para que os presidentes das centrais participem do banquete preparado para o presidente americano, Barack Obama, no próximo sábado, no Itamaraty.

- Pela primeira vez os representantes dos trabalhadores, e não só dos empresários, vão se sentar num banquete com um chefe de Estado com o poder de Barack Obama - disse Antonio Neto, presidente da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB).

- Dilma busca proximidade, quer avançar numa relação que Lula construiu nos últimos 30 anos com o movimento sindical. Ela beijou e abraçou todo mundo, e não falou não para nada, e ainda nos convidou para o almoço no Itamaraty. Isso mostra uma grande mudança de tratamento. Nem Lula fez isso! - completou Neto.

O deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical e que foi uma pedra no sapato do governo na votação do salário mínimo, ganhou de Dilma afagos e beijinhos. Logo na primeira reunião, ela se encarregou de quebrar o gelo.

- Paulinho, Paulinho - gracejou a presidente.

Depois, Dilma deixou claro que a irritação passou e até tirou foto com rosto colado ao do deputado.

- O Paulinho é reclamador, mas faz parte. O bom sindicalista tem de reclamar. O Lula sempre me disse isso.

A presidente abriu a reunião, que durou cerca de duas horas, com uma avaliação do governo e se emocionou em alguns momentos. Entre eles, quando falou do combate à miséria e dos cuidados com as mães. Também elogiou e citou Lula várias vezes. Segundo os sindicalistas, Dilma estava descontraída. Na reunião, além de água e café, foi servido suco de maracujá. Na ausência do ministro da Fazenda, Guido Mantega, ela aproveitou para lhe dar uma alfinetada quando fazia uma análise macroeconômica do seu governo, garantindo que não ficaria refém do mercado e que priorizaria o combate à miséria:

- O Mantega fica se explicando para porteiro e zelador de edifício que é desenvolvimentista. Mas quem é de verdade não precisa ficar dizendo - ironizou a presidente, segundo presentes.

O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, avaliou que a presidente desfez a imagem de durona que costuma ter:

- Foi um ambiente muito descontraído. Ela surpreendeu o pessoal porque sempre passa a imagem de uma presidente muito retraída, mas ela foi muito leve.