Título: Brasil vai rediscutir relação comercial com EUA
Autor: Oswald, Vivian
Fonte: O Globo, 15/03/2011, O País, p. 9

VISITA DE OBAMA

BRASÍLIA. O Brasil vai rediscutir a relação comercial com os Estados Unidos durante a visita do presidente Barack Obama, neste fim de semana. O real valorizado, o ritmo acelerado de crescimento brasileiro, a crise financeira global e as barreiras americanas impostas a produtos nacionais considerados competitivos tornaram a balança muito mais favorável aos EUA - que já exportaram para o Brasil US$13,65 bilhões a mais do que importaram desde as turbulências globais de 2008.

A partir de 2009, o Brasil passou a amargar resultados negativos com os americanos, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. As perdas brasileiras se acentuaram na recuperação do pós-crise. No ano passado, o déficit bateu os US$7,73 bilhões, o pior resultado de que se tem notícia. E, somente nos dois primeiros meses deste ano, o saldo negativo do Brasil já está em US$1,25 bilhão, ou 93,8% acima do mesmo período do ano anterior.

- A mudança do resultado vem acontecendo há alguns anos. Passamos de um superávit próximo de US$10 bilhões, em 2006, para um déficit de quase US$ 8 bilhões no ano passado, uma variação de US$18 bilhões - destacou o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

As importações brasileiras dos EUA cresceram 34,9% em apenas um ano. Passando de US$20,03 bilhões em 2009 para US$25,62 bilhões em 2010, consolidando-se como o principal fornecedor de produtos ao Brasil no exterior. Já as exportações brasileiras para os EUA subiram menos: 23,7%. De 2000 a 2010, o Brasil comprou 110,2% a mais dos EUA.

Analistas ouvidos pelo GLOBO atribuem a mudança dos sinais na balança sobretudo ao câmbio. Com a valorização do real, o dólar passou a valer menos, e as exportações brasileiras ficaram mais caras. Já os produtos americanos passaram a custar menos em real.

Além disso, o crescimento mais vigoroso da economia brasileira aumentou o apetite do mercado nacional por importações, sobretudo por produtos de alto valor agregado e conteúdo de tecnologia que não são produzidos no Brasil. Historicamente, os EUA são o principal fornecedor de máquinas e equipamentos para o país.

- Uma das características do crescimento do Brasil é que é intensivo em importações de conteúdo com tecnologia elevada - afirmou o especialista em economia internacional e ex-presidente do Banco Central (BC) Carlos Langoni.

Para José Augusto de Castro, da AEB, o Brasil subestimou os americanos, que estão cada vez mais agressivos.

- Com a China na berlinda, os EUA foram deixados de lado e cresceram sem que nos déssemos conta. Eles estão mais agressivos. É uma diretriz do governo Obama. O dólar fraco os favorece - alerta Castro.

Para Carlos Langoni, as dificuldades com o câmbio e com o aumento das importações brasileiras são agravadas pelas barreiras impostas pelos EUA a produtos brasileiros, como suco de laranja, carne bovina, fumo e etanol.

- São barreiras inexplicáveis do ponto de vista econômico e do consumidor americano, que sai prejudicado. Os EUA impõem tarifas altíssimas para o suco de laranja brasileiro. E subsidiam a sua produção de etanol a partir do milho, que é muito menos competitiva do que a nossa - disse Langoni, lembrando que a Organização Mundial de Comércio (OMC) já puniu os americanos pela imposição de tarifas excessivas a algodão e suco de laranja brasileiros.

O perfil da pauta de exportações brasileira para os EUA também vem mudando. Os produtos industrializados, que correspondiam a 75,5% de tudo o que os americanos compravam do Brasil em 2002, não passaram de 60% da pauta no ano passado. Já as commodities passaram de 7,4% do total para mais de 25% no período.

Brasil quer saber como EUA estão lidando com a China

A agenda comercial entre os dois países não deve se restringir ao relacionamento bilateral. O Ministério do Desenvolvimento quer aproveitar a vinda de Obama para discutir como os americanos têm feito para lidar com a invasão das exportações chinesas, sobretudo de produtos de cada vez melhor qualidade e maior valor agregado.

Esses aspectos sempre preocuparam os americanos, que, até recentemente, eram de longe o principal mercado da China. Este ano, os chineses deixaram os alemães para trás e já ocupam a segunda posição em exportações de máquinas e equipamentos ao Brasil. A China também passou a ser o principal parceiro comercial do Brasil e já compra do país bem mais do que os EUA.