Título: O custo da tragédia
Autor: Ribeiro, Fabiana ; Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 15/03/2011, Economia, p. 21

A reconstrução do Japão após a tragédia do terremoto, seguido de tsunami e ameaça de acidente nuclear, poderá ter um custo econômico para o país de pelo menos US$180 bilhões, o equivalente a 3% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos ao longo de um ano) japonês. Os estragos na terceira maior potência do planeta não passarão incólumes pela ainda frágil economia mundial. Analistas preveem impacto na inflação e no crescimento global. Os efeitos serão sentidos principalmente nas indústrias automobilística e eletroeletrônica. Com algumas fábricas paralisadas no Japão, produtores já temem falta de componentes para os televisores vendidos no Brasil. Por outro lado, os esforços japoneses para a reconstrução devem aumentar a demanda por aço e minério de ferro e, ontem, a alta dessas commodities garantiu o ganho da Bolsa brasileira.

A Sony suspendeu a produção em sete fábricas no Japão, devido a falhas no fornecimento de energia - mesmo motivo para a Toshiba fechar algumas unidades. A montadora Toyota também interrompeu a produção em diversas fábricas. A Nissan manterá quatro unidades fechadas até amanhã. E seis fábricas da Honda ficarão paradas até o fim desta semana.

Diante desse cenário, o presidente da Associação Nacional de fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), Lourival Kiçula, afirmou que o setor está apreensivo. Grande parte dos insumos adquiridos na China e Coreia do Sul é fabricada a partir de componentes japoneses e não há substituto para determinados semicondutores e transístores. Segundo ele, as consequências para o Brasil não serão imediatas, pois as empresas locais têm um bom estoque e há uma quantidade razoável de equipamentos a caminho do país ou nas alfândegas.

- Para os próximos 60 dias estamos bem, eu me preocuparia para o 61º dia. O preço pode subir, podem faltar televisores. Mas esse impacto tende a ser temporário - afirmou Kiçula. - No ano passado, houve um problema em uma fábrica de displays da Sharp e ficamos sem componentes aqui no Brasil, afetando a produção. Imaginamos que agora a situação será pior. São equipamentos muito delicados, que param de ser fabricados a qualquer sinal de tremor.

Expectativa de alta de aço puxa Bovespa

A inflação preocupa Rogério César de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Para ele, deve haver altas de preços nos setores em que o Japão possui oligopólio, como alguns tipos de semicondutores. Mas Souza acredita que, em resposta a medidas de estímulo do governo, pode haver queda de preços em outros segmentos, como carros:

- O governo japonês vai incentivar as exportações. Eles sempre fazem isso, o mercado externo é uma grande porta para eles.

A economista Monica de Bolle, da consultoria Galanto, também teme que a catástrofe japonesa se torne mais um foco de pressão à inflação no Brasil e em outros países. E isso em um cenário de alta de petróleo, que pode afetar a economia americana.

- É preciso olhar melhor para inflação. Se houver uma queda da atividade por causa dos eventos globais, isso não será ruim. É bom lembrar que o Brasil está num ciclo econômico diferente das demais economias do mundo - disse Monica, acrescentando que, no caso de uma desaceleração da economia global, os preços das commodities recuam, o que seria bom para o combate à inflação no Brasil. - Esse choque do Japão é um ponto de interrogação. Afinal, há grandes incertezas em torno de grandes motores da economia mundial.

Ela lembra, contudo, que a China pode vir a ocupar espaços abertos - mesmo que temporariamente - pela indústria japonesa, mais fortemente que o Brasil.

Inicialmente, Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), previa que o PIB japonês avançasse 1,7% em 2011 - metade da alta prevista para os EUA. Com a catástrofe, sua estimativa foi reduzida, mas não muito, para 1,3%:

- Há um impacto transitório. A partir do segundo semestre, com a mobilização de recursos para a construção, o país deve voltar aos poucos à normalidade. Para o Brasil, paradoxalmente, a tragédia pode trazer uma demanda maior por algumas commodities, em especial minério de ferro. Mas não vejo um grande efeito na economia mundial.

Graças à perspectiva de alta nos preços de minério de ferro e aço, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) avançou 0,73% ontem, aos 67.169 pontos. Espera-se uma redução na oferta global de aço, já que a Nippon Steel é uma das maiores produtoras do mundo. Além disso, os esforços de reconstrução do Japão devem puxar a demanda pelo produto. As ações ordinárias (ON, com voto) da Usiminas - que tem a Nippon Steel no seu grupo de controle - subiram 9,55% e as preferenciais (PN, sem voto), 2,08%. Na semana passada, circularam rumores de que haveria uma mudança no controle da siderúrgica mineira, o que a empresa negou. O dólar recuou 0,24%, para R$1,662. O Banco Central (BC) fez dois leilões de compra no mercado à vista.

A Bolsa de Tóquio foi a mais afetada: desabou 6,18% ontem. Hoje, abriu já em queda de 5%. Na Europa, Londres caiu 0,92% e Frankfurt, 1,65%. Em Nova York, o índice Dow Jones recuou 0,43%, e a Nasdaq, 0,54%.

A analista americana Sheila Smith, especialista em Japão do Council on Foreign Relations, lembra que os custos da reconstrução aumentarão o desafio fiscal do país, cuja dívida pública ultrapassa 200% do PIB.

- Capitais japoneses terão de ser repatriados para ajudar nesse esforço do governo, e isso terá implicações globais - afirmou.

Já a professora da Universidade de Columbia Alicia Ogawa acredita que a tragédia pode forçar uma mudança na cultura corporativa do Japão:

- Esta é a parte sobre a qual estou mais otimista. Para se recuperar, eles terão de mexer em algumas regras que têm segurado o desenvolvimento do país há muito tempo, principalmente leis e costumes trabalhistas. As empresas japonesas nunca tiram alguém de um concorrente, não contratam estrangeiros ou alguém que já esteja no meio da carreira. Elas serão forçadas a se abrir e se tornar mais flexíveis.

COLABOROU Emanuel Alencar, com agências internacionais (*) Correspondente