Título: Fome e isolamento nos abrigos de Sendai
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Fonte: O Globo, 15/03/2011, Mundo, p. 18
SENDAI, Japão. O barulho de helicópteros militares indicava que só havia uma rota segura até a costa de Miyagi, onde fica a área arrasada pela onda gigante provocada pelo terremoto da última sexta-feira. Mas não era preciso chegar à beira do mar para dar de cara com o horror que o mundo assistiu pelas imagens da TV. As redondezas do aeroporto da cidade de Sendai, bem próximo do litoral, viraram um terreno de entulhos. Carros arrastados, rodovia rachada, arrozais cobertos pela lama. A vida ali parecia ter ficado congelada, simbolizada por restos de tudo: lixo, móveis, roupas, casas inteiras, um álbum de família. O solo se comportava como gelatina, balançado por tremores constantes. Às 11h de ontem, um alarme soou e os moradores começaram, mais uma vez, a fugir do perigo. ¿Corra, entre no carro e saia daqui!¿, avisavam. Era um alerta sobre a iminente chegada de uma nova tsunami, com ondas de até três metros.
O vento forte reforçava a certeza de que tentar chegar ainda mais perto do litoral, onde comunidades desapareceram do mapa, seria uma decisão suicida naquele momento. As pessoas corriam, a pé ou de bicicleta. A pista danificada era mais um obstáculo aos poucos carros que ainda circulavam por ali na manhã de segunda-feira. Sair voando de Sendai, onde vivem um milhão de habitantes, é o que todos querem, mas a população não tem como ir muito longe. Só havia combustível nos postos para ambulâncias e equipes de resgate. Os meios de comunicação avisavam do perigo e informavam que mais dois mil corpos haviam sido encontrados a poucos quilômetros dali. O Nordeste do país, ameaçado ainda por problemas em três usinas nucleares, foi transformado pelo impensável.
Angústia sem saber notícias de parentes e amigos
O número de mortos confirmados já passa de 3.800 desde sexta-feira. O risco de um novo terremoto e mais ondas gigantes é alto. Sendai, a capital da província de Miyagi, está dividida em duas partes: na região mais central há sinais de destruição, mas os japoneses tentam seguir a vida; nas proximidades do litoral, não há como fazer isso. É uma terra arrasada, feita de lama e poeira, onde a população ainda aguarda a chegada de equipes de resgate.
A cidade está isolada e o que mais se vê são filas quilométricas de carros diante de postos de gasolina, esperando a chegada de combustível. Não há trens ou ônibus para a região, e o aeroporto acabou. Três dias depois do terremoto, uma escola municipal era usada como abrigo por centenas de pessoas. Yousuke Issawa e a mulher seguravam no colo duas crianças de 2 e 4 anos. A família conseguiu fugir do litoral e escapar da tsunami. A irmã de Issawa está desaparecida.
¿ Há leite sendo distribuído para as crianças, mas elas só estão comendo doces e balas desde que fugimos ¿ contou.
Reunidos em torno de um aquecedor a querosene, um grupo de idosos, com os rostos cobertos por máscaras de proteção ¿ um acessório comum no dia a dia dos japoneses ¿ assistia à TV. Não pareciam desesperados, mas tristes. E sozinhos.
¿ Moro num prédio alto e o elevador não funciona, não tenho como ficar lá ¿ dizia um senhor, com cerca de 70 anos. ¿ Nunca passei por algo assim antes e o que me preocupa é que não tenho mais o que comer.
Um cartaz avisava que a comida chegaria às 18h30m, mas eram biscoitos, sanduíches e bolos, nenhuma refeição quente. Cozinhar em Sendai é uma tarefa difícil num momento de escassez total.
¿ Não como arroz há três dias ¿ dizia uma senhora, citando o alimento mais reverenciado pelos japoneses. ¿ Mas pelo menos fiz novos amigos aqui no abrigo ¿ sorria.
A maioria das pessoas mencionava a falta de notícias de parentes e amigos que viviam na região costeira, sem comunicação com o mundo. Além da falta de comida e de qualquer plano viável de fuga, a maior preocupação ontem eram as notícias sobre radiação na província vizinha e as chances de um novo grande terremoto atingir até 7 graus (70% de probabilidade, segundo especialistas).
¿ Quando ouvi isso na TV realmente me desesperei. Olhe à sua volta. A situação já é terrível, como vamos suportar uma outra tragédia? ¿ perguntava mais um sobrevivente, com um cachorrinho no colo.
O alerta de tsunami, que fez a população voltar a correr em pânico pelas ruas de Sendai, foi retirado na tarde de segunda-feira, mas tremores continuavam a ocorrer.