Título: União Europeia revisa segurança nuclear
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Fonte: O Globo, 15/03/2011, Mundo, p. 18
BERLIM. A tragédia do Japão reacendeu com toda força o debate sobre a segurança da energia nuclear, levando diversos países a retomarem a discussão sobre a urgência de normas mais rígidas para um setor cuja demanda aumenta a cada dia, com a necessidade de energia mais eficiente e sem CO2. O comissário de Energia da União Europeia, Gunther Oettinger, convocou ontem uma reunião de emergência para debater o assunto. Mas a maior resposta veio da Alemanha, onde a chanceler federal Angela Merkel decidiu revogar uma licença especial, dada no ano passado, para antigos reatores continuarem operando.
A chanceler federal voltou atrás um mês antes de seu partido enfrentar três eleições regionais, supostamente temendo que seus rivais explorassem o tema na campanha. No último sábado, milhares de manifestantes antinucleares formaram uma corrente humana de 45 quilômetros desde Stuttgart até uma usina nuclear, que segue operando graças à nova política. O protesto foi marcado antes do terremoto no Japão.
No Reino Unido, que desenvolve um grande programa nuclear para substituir suas usinas antigas, o secretário de Energia, Chris Huhne, disse anteontem que havia pedido ao inspetor-chefe nuclear informação sobre as implicações da crise japonesa.
Para a deputada ecologista britânica Caroline Lucas, o acidente reforça a luta contra a construção dessas centrais.
¿ Nunca se pode descartar completamente um erro humano, uma falha de projeto ou um desastre natural ¿ alertou Caroline, cujo partido defende a eficiência energética e as energias renováveis para que o Reino Unido alcance as suas metas energéticas e enfrente as mudanças climáticas.
Walt Patterson, membro associado do grupo de especialistas Chatham House, de Londres, afirmou que a crise japonesa afeta a percepção da opinião pública a respeito da indústria nuclear, e o prejuízo financeiro pode ser grave.
¿ Alguém terá que pagar a fatura e provavelmente será a população japonesa, de uma maneira ou outra ¿ acrescentou. ¿ Isso, sem dúvida, vai reavivar o debate na Europa sobre a duvidosa viabilidade econômica dessas usinas.
Na Suíça, que tem cinco usinas nucleares, o debate também se acirrou. O governo decidiu suspender todas as licenças em curso para autorizar novas centrais nucleares enquanto reavalia a segurança das já existentes no país, segundo anunciou ontem a ministra de Energia, Doris Leuthard.
Em reunião da União Europeia, em Bruxelas, o ministro austríaco do Meio Ambiente, Nikolaus Berlakovich, pediu ontem que sejam feitos testes de resistência nas centrais nucleares europeias para que se avaliem seus níveis de segurança. A reação de seus pares, segundo o ministro, foi ¿muito favorável¿ à proposta.
A França, o segundo produtor nuclear do mundo com 58 reatores, discute possíveis medidas de precaução. Uma fonte da indústria francesa disse que o acidente nuclear vai suscitar o debate sobre a segurança, e especialistas defendem a fabricação de reatores de terceira geração, nos quais o núcleo é confinado.
Senador dos EUA pede cautela com usinas
O comissário de Energia da União Europeia, Gunther Oettinger, reúne-se hoje com os responsáveis pela segurança nuclear, operadores e construtores de usinas nucleares para falar sobre as lições que estão sendo aprendidas depois do acidente no Japão.
A tragédia japonesa é um sério golpe à indústria nuclear, que começava a se recuperar, com a diminuição dos temores da opinião pública sobre a segurança que ainda remetiam a Chernobyl, o pior acidente nuclear da história, em 1986, na Ucrânia.
O mapa da energia nuclear no mundo mostra que até o último dia 10 estavam em operação 442 reatores nucleares, em 29 países (os Estados Unidos têm 104), com capacidade instalada de 365.001 megawates, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU. Outras 65 usinas estão em construção.
Com argumento de investir em tecnologias menos poluentes e mais eficazes, até a última sexta-feira vários países planejavam construir novas centrais nucleares, considerando essa forma de energia como uma alternativa limpa ao petróleo e ao gás, caros e com recursos cada vez mais escassos.
No entanto, ativistas antinucleares de toda Europa têm usado o acidente do Japão como prova dos perigos da energia nuclear, e afirmam que os governos deveriam rever a construção de mais usinas.
¿ Governos deveriam pensar duas vezes antes de planejar construir centrais nucleares em zonas sísmicas ¿ disse Jan Haverkamp, que faz campanha na UE para o grupo ecologista Greenpeace, que se opõe à instalação de novos reatores nucleares e defende que os atuais sejam desligados.
Além dos governos europeus, o acidente também teve impacto nos Estados Unidos. O senador americano Joe Lieberman, que coordena um grupo de especialistas em segurança nacional, disse que o seu país deveria frear a construção de novas usinas nucleares até que se esclareça o acidente no Japão.