Título: Bovespa, enfim, cede ao Japão e recua 1,5%
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 17/03/2011, Economia, p. 21

RIO, NOVA YORK e TÓQUIO. A preocupação com o agravamento da situação no Japão e o impacto da radioatividade no processo de reconstrução do país enfim afetou mais fortemente o mercado brasileiro ontem. O Ibovespa, principal referência do mercado, caiu 1,50%, aos 66.002 pontos. Desde a última sexta-feira, no entanto, o índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) foi o que registrou menor queda entre os principais de Estados Unidos, América Latina, Europa e Ásia. O recuo foi de apenas 0,06%, bem distante de bolsas como Paris (6,75%) e Nova York (3,10% pelo Dow Jones), além da de Tóquio (12,85%), segundo dados da agência Bloomberg News.

- A Bovespa enfim cedeu à feiúra do quadro no Japão - disse Álvaro Bandeira, diretor da Ativa Corretora.

Ontem, as principais bolsas mundiais - à exceção do mercado asiático - viveram mais um dia de pânico, diante de notícias de mais explosões da usina nuclear de Fukushima e declarações de autoridades sobre a gravidade da situação. Já o índice Nikkei, da Bolsa de Tóquio, saltou 5,68%, superando os 9 mil pontos, depois de dois dias de fortes perdas. Isso puxou as demais bolsas da região: Xangai subiu 1,19%, Seul, 1,77%, e Taiwan, 1,09%.

- A maior parte do movimento é de cobertura de posições por investidores japoneses e internacionais e não compras ativas, porque as preocupações sobre a crise nuclear ainda são grandes - disse à agência Reuters Fujio Ando, diretor da Chibagin Asset Management.

Já as declarações do Comissário de Energia da União Europeia (UE), Gunther Oettinger, de que a situação na usina de Fukushima estava "fora de controle" levaram pânico aos mercados europeus. Mais tarde, uma porta-voz de Oettinger afirmou que as declarações eram um temor pessoal dele, mas o estrago já estava feito. Londres caiu 1,70%, Paris, 2,23%, e Frankfurt, 2,01%. Em Nova York, o índice Dow Jones fechou em queda de 2,04%. Além do Japão, pesaram dados sobre a economia americana, com queda na construção de imóveis e avanço dos preços no atacado. Nasdaq e S&P caíram 1,89% e 1,95%, respectivamente, acumulando variação negativa no ano.

Segundo o economista-chefe da corretora Interbolsa, Julio Hegedus, as declarações de Oettinger também afetaram o Ibovespa, que nos primeiros dias após o terremoto havia sido puxado pela perspectiva de ganhos com a reconstrução das cidades japonesas:

- Havia uma perspectiva de que os setores de aço e infraestrutura seriam beneficiados pela reconstrução. Não é que estivéssemos alheios à crise, mas o impacto era menor.

Além disso, apontou Bandeira, havia uma percepção de que a situação no Japão iria se acertar em algum momento. Diante da possibilidade de fusão nuclear e do aumento da radiação em Tóquio, no entanto, ao lado de indicadores não tão bons nos Estados Unidos e do rebaixamento da nota do crédito soberano de Portugal, pela agência internacional de classificação de risco Moody"s, o mercado brasileiro acabou se rendendo.

Apenas 13 ações do Ibovespa subiram, destacando-se os setores de construção e varejo, devido à avaliação de que a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) trará um cenário de alta dos juros menor que a estimada inicialmente pelo mercado.

Iene atinge maior cotação frente ao dólar no pós-guerra

Já a moeda japonesa atingiu sua maior cotação no pós-guerra: 76,36 ienes frente ao dólar, recuando depois a 78,57 ienes na manhã de hoje em Tóquio, segundo a Bloomberg. A valorização se deve à expectativa de que as seguradoras terão de repatriar muito capital para pagar indenizações. O recorde anterior, de 79,75 ienes, era de abril de 1995.

As cotações do petróleo, por sua vez, tiveram tendências opostas. O barril do tipo Brent, negociado em Londres, fechou em alta de 1,94%, a US$110,62, influenciado pelos conflitos nos países árabes. Já o barril do leve americano recuou 1%, a US$97, em Nova York, onde pesaram mais as preocupações com o Japão.

(*) Com agências internacionais

FORA DE CONTROLE, no caderno especial sobre a tragédia japonesa