Título: Kadafi ameaça revidar no Mediterrâneo
Autor: Godoy, Fernanda
Fonte: O Globo, 18/03/2011, O Mundo, p. 39

Ditador chama ONU de arrogante e diz que tornará vida do mundo 'um inferno' TRÍPOLI. Diante de novas ameaças feitas por Muamar Kadafi de "esmagar" os insurgentes líbios ao convocar uma ofensiva para a noite de ontem contra Benghazi, a decisão do Conselho de Segurança da ONU de criar uma zona de exclusão aérea foi comemorada na cidade por milhares de rebeldes, que lançaram fogos de artifício e agitaram bandeiras da época da monarquia. A agitação, no entanto, contrastava com o avanço das forças leais a Kadafi, que ontem se aproximavam da cidade e bombardearam três pontos nos entornos de Benghazi. Kadafi qualificou a decisão da ONU de arrogante, e prometeu revidar caso fosse atacado. ¿ Se o mundo enlouquecer, enlouqueceremos junto. Vamos responder. Faremos de sua vida um inferno ¿ disse. Mais cedo, o ditador já havia subido o tom contra os insurgentes e a comunidade internacional, afirmando que "o momento da verdade" chegara. ¿ Não haverá misericórdia, nem hesitação. Nossas tropas estão indo para Benghazi hoje (ontem) à noite. Iremos rua por rua, casa por casa. Vamos procurá-los dentro de seus armários ¿ ameaçou. Na TV, um porta-voz do governo também alertou que o tráfego aéreo e marítimo no Mar Mediterrâneo ficaria ameaçado caso a Líbia fosse atacada por países estrangeiros. ¿ Qualquer ação militar estrangeira contra a Líbia vai expor todo o tráfego do Mediterrâneo ao perigo, e instalações civis e militares se tornarão alvos de um contra-ataque líbio ¿ desafiou. Mas rebeldes em Benghazi acreditam que as forças do ditador não chegarão tão rápido quanto o anunciado pelo regime, já que ainda estavam detidas em combates na cidade próxima de Ajdabiya, onde ao menos 30 pessoas morreram ontem. Apesar de o governo ter anunciado a reconquista desta cidade no início da semana, os insurgentes promoveram um contra-ataque na esperança de impedir que as forças do ditador entrem em Benghazi ¿ sede do movimento insurgente. Desertores entregaram até helicóptero a rebeldes A expectativa dos combatentes antigoverno era resistir o máximo de tempo possível, na esperança de que forças ocidentais chegassem logo para ajudá-los a frear a ofensiva do ditador. Os insurgentes são ajudados por soldados desertores do regime de Kadafi, que desviaram tanques, armas e até um helicóptero das Forças Armadas líbias para o movimento rebelde. Em Misurata, a último bastião rebelde no oeste do país ¿ um porta-voz dos revoltosos elogiou o novo tom dos EUA contra o regime, e disse que estava tocado pela decisão do Conselho de Segurança da ONU. Na cidade, foram cortadas eletricidade, água e comunicação, mas os insurgentes continuam a resistir. Segundo Musa Ibrahim, um porta-voz do governo de Kadafi, as forças pró-governo estão se preparando para tomar Misurata, como fizeram com Zawiya, outra cidade do oeste líbio reconquistada pelo regime. ¿ Começamos circundando a cidade, e depois indo devagar ¿ disse. ¿ Estará terminado ou hoje (ontem), ou amanhã. EUA preferem deixar ação a árabes e europeus França pode realizar ataque com aviões, e Itália põe bases aéreas na Sicília à disposição Ao receber a autorização da ONU para fazer cumprir uma zona de exclusão aérea e proteger os civis por meio do uso da força, se necessário, a comunidade internacional poderá intervir com meios militares para cumprir essa missão. Mas, uma vez aprovada a resolução, falta agora saber quais os países realmente dispostos a levá-la adiante e "apertar o gatilho". Os EUA, que já contam com navios militares na área, resistem desta vez a assumir esse papel e serem os únicos protagonistas da ação. Envolvidos em duas guerras intermináveis no Iraque e no Afeganistão, os EUA já deixaram claro nos últimos dias que consideram os países vizinhos da Líbia ¿ europeus e árabes ¿ os atores mais apropriados a cumprir essa tarefa. A França parece pronta e disposta a realizar a missão. Com o governo desmoralizado internamente pela proximidade mostrada com os ex-ditadores de Tunísia e Egito, Nicolas Sarkozy foi um dos principais defensores da resolução contra o regime líbio. Fontes diplomáticas francesas afirmaram que o país poderia atacar as forças de Kadafi em questão de horas após a aprovação da resolução na ONU. A ofensiva poderia ser realizada a partir de uma base do país a 1.200 quilômetros da costa líbia. Um ataque por terra parece já ter sido totalmente descartado. A Itália também se apressou em disponibilizar suas bases aéreas na Sicília para possíveis ataques contra o ditador. Segundo o jornal britânico "Guardian", aviões do Reino Unido já se preparavam para uma ofensiva militar antes mesmo da decisão da ONU. Um funcionário americano disse que Qatar, Emirados Árabes e Jordânia poderiam participar de uma ação militar. Na contramão, a Alemanha ¿ que se absteve na votação ¿ já afirmou que não participará da intervenção.