Título: Do Rio, Obama monitora a guerra
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 21/03/2011, O Mundo, p. 33
Presidente americano muda sua agenda carioca para participar de teleconferência sobre ataques à Líbia
A repentina mudança de horário da visita de ontem do presidente Barack Obama ao Corcovado - inicialmente prevista para a manhã, e remarcada para as 21h -, foi provocada por um forte motivo. A alteração foi decidida na noite anterior, para que na manhã seguinte Obama pudesse liderar desde o Rio uma teleconferência internacional com o seu Conselho de Segurança Nacional sobre a crise na Líbia. O encontro começou às 9h20m, com a participação da secretária de Estado, Hillary Clinton; do assessor de segurança nacional da Casa Branca, Tom Donilon, e o vice dele, Denis McDonough; do comandante das forças americanas na África, general Carter Ham, e do chefe de gabinete do presidente, Bill Daley. O presidente americano sempre viaja com todo o equipamento de segurança necessário - fornecidos pelos serviços de inteligência e o Exército - para poder fazer teleconferências com a proteção máxima de sigilo.
Na verdade, essa não foi a primeira reunião de emergência sobre a questão Líbia durante a estada de Obama no Brasil. No sábado, dia em que desembarcou em Brasília, a declaração conjunta de Dilma e do presidente americano diante da imprensa, agendada para as 11h40m no Palácio do Planalto, sofreu um considerável atraso pelo mesmo motivo. Segundo o conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Tom Donilon, uma teleconferência semelhante - com a participação do comandante das Forças Armadas americanas, almirante Mike Mullen - ocorreu ao meio-dia, horas depois da aterrissagem do Air Force One na base aérea da capital brasileira. Às 12h17m, Obama deu o sinal verde para a ação militar contra a Líbia, para a aplicação da zona de exclusão aérea, autorizada na quinta-feira pela resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU.
Segundo Donilon, já durante o voo no avião presidencial ao Brasil houve um briefing sobre o tema e contatos com Paris. Às 9h, já no hotel em Brasília, ocorreu uma nova reunião. Na sexta-feira haviam sido deflagradas conversações mais concretas entre Washington e seus aliados internacionais para estudar a viabilidade e o início dos ataques. Ontem ao meio-dia Obama conversou com o rei Abdullah, da Jordânia, para tratar da coordenação da operação.
O assessor da Casa Branca reafirmou que a ação militar é "limitada", concentrada na proteção aos civis, conforme estabelece a resolução da ONU. Mas definiu que os EUA consideram os rebeldes que lutam contra o governo de Muamar Kadafi como parte do grupo que necessita de proteção.
- Eles não são militares, são civis - defendeu.
Apesar de sublinhar os limites da operação militar, no âmbito estrito da resolução 1973, Tom Donilon afirmou que o "objetivo dos EUA a longo prazo é o de derrubar Kadafi do poder". Ele confirmou que o governo de Washington deverá deixar em questão de "dias ou semanas" a liderança da coalizão internacional na ação contra a Líbia, mas permanecerá como membro atuante.
- Continuaremos a dar apoio em áreas de inteligência, cortes de comunicações, reabastecimento de combustível, ajuda humanitária e em outros aspectos logísticos - assegurou.
Sobre as novas declarações de Kadafi, acenando com mais uma possibilidade de cessar-fogo, o assessor de Casa Branca manifestou sua desconfiança:
- Continuaremos vigilantes nas ações de Kadafi, não somente em suas palavras - garantiu.