Título: Militantes de protesto anti-EUA são soltos
Autor: Lima, Maria; Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 22/03/2011, O País, p. 3

Dos 12 presos na sexta em frente ao consulado, 8 tiveram cabeça raspada no presídio

Os 12 manifestantes presos em flagrante na última sexta-feira, durante manifestação em frente ao consulado americano, no Centro do Rio, foram libertados ontem, por determinação do desembargador Cláudio Luis Braga Dell"Orto, do Tribunal de Justiça do Rio. Eles foram detidos quando protestavam contra a visita do presidente Barack Obama. No ato, os militantes lançaram dois coquetéis molotov - um deles atingiu a porta da representação americana e feriu um vigilante.

Dos 12 presos, oito foram encaminhados para o presídio Ari Franco, onde os agentes penitenciários os obrigaram a raspar a cabeça. A atitude provocou protestos de outros militantes, boa parta filiada a PT, PDT, PCB, PCdoB, PSTU e PSOL. Os outros quatro presos foram levados para Bangu 8. O grupo foi levado para os presídios por conta de um decreto publicado no último dia 15 pelo governador Sérgio Cabral, que determina transferências para presídios com o objetivo de desafogar a carceragem da Polinter.

Polícia impede protesto nas escadarias do Municipal

Mais cedo,70 manifestantes fizeram um protesto no Theatro Municipal, onde Barack Obama discursou. A intenção era fazer lavagem simbólica das escadarias como forma de pressionar pela libertação do grupo, mas foram impedidos por cerca de 60 PMs do 13º Batalhão e da Polícia de Choque. Optaram por lavar a calçada em frente.

- A prisão foi arbitrária. Não houve comprovação de que eles jogaram as bombas no consulado - disse Heitor César, do PCB.

A manifestação, que durou apenas 40 minutos, exibiu bandeiras dos partidos políticos e de entidades sindicais.

A prisão, na sexta-feira, aconteceu depois de uma passeata que começou na Candelária e, sem autorização da polícia, percorreu a Avenida Rio Branco até dobrar na Presidente Wilson e parar em frente ao consulado americano. Ao chegar, foram barrados pela polícia e atiraram os coquetéis. A polícia, ao reagir, disparou balas de borracha e spray de gás de pimenta.

O delegado da 5ª DP (Centro), Alcides Pereira, disse que os manifestantes presos foram autuados em dois crimes: incêndio e lesão corporal. Embora soltos, eles continuarão respondendo ao inquérito. As penas variam de três a 12 anos:

- O inquérito ainda depende do material apreendido, entre eles um soco inglês e uma garrafa de coquetel molotov, além do resultado da perícia local e do exame de corpo de delito do vigilante ferido.

A polícia ainda não conseguiu identificar o autor da bomba caseira lançada contra o consulado. Para isso, o delegado solicitou as gravações feitas pelas câmeras de segurança da representação. Um dos objetivos é constatar se foi um ato isolado em uma manifestação que começou de forma pacífica.

A Secretaria de Administração Penitenciária divulgou nota, na noite de ontem, explicando que raspar a cabeça faz parte da rotina do presídio, por questões de higiene.

A idosa Maria de Lourdes Pereira da Silva, de 69 anos, 13ª pessoa presa no protesto, já havia sido liberada no domingo por um habeas-corpus. Personagem folclórica no Rio, conhecida como Vovó Tricolor, Maria de Lourdes costuma passear por Copacabana levando um galo pela coleira, vestida com o uniforme do Fluminense.

- Ela não é militante política. Passava na hora pela Avenida Rio Branco e decidiu aderir à manifestação, o que mostra a arbitrariedade das prisões - afirmou o deputado federal Chico Alencar (PSOL).

- Eles nos deram status de presos políticos, mas nos trataram como presos comuns - disse Gualberto Tinoco, de 58 anos, funcionário público que foi um dos presos.

PSTU e PSOL negam a autoria do ataque com coquetéis

Maria de Lourdes ficou presa com a professora Pâmela Rossi e a universitária Gabriela Proença da Costa no presídio Bangu 8. Outros nove militantes do PSTU tiveram as cabeças raspadas no presídio de Água Santa. As duas mulheres e os nove homens aguardavam a chegada do alvará de soltura até as 17h de ontem. Pela manhã, foi libertado o estudante J., de 16 anos, aluno do Colégio Pedro II. Ele ficou detido em um centro de triagem para menores infratores.

O PSTU e o PSOL negam que o artefato tenha sido lançado pelos seus militantes.

- O consulado tem todo um aparato de segurança com câmeras instaladas. Desafio que apresentem alguma imagem dos nossos militantes jogando o coquetel - afirmou Cyro Garcia, presidente do PSTU.