Título: Início de operação de Jirau deve atrasar meses
Autor: Tavares, Mônica; Ordoñez, Ramona
Fonte: O Globo, 22/03/2011, Economia, p. 23

Área onde houve rebelião abrigará turbinas, que seriam acionadas em um ano. Procurador quer garantias para terceirizados

BRASÍLIA e RIO. O início das operações da Usina Hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira (RO), previsto para daqui a um ano, poderá atrasar meses depois do quebra-quebra da semana passada, que paralisou suas obras. A avaliação é de Victor Paranhos, presidente do consórcio que administra a usina, o Energia Sustentável do Brasil. Segundo ele, a manutenção ou não do cronograma vai depender do número de trabalhadores que a empresa conseguir recontratar a curto prazo e das condições de segurança que o governo garantir ao projeto.

A ameaça de atraso decorre do fato de a rebelião, motivada pela reivindicação de melhores condições de trabalho, ter ocorrido na área em que está sendo montada a Casa de Força 1, na qual serão instaladas 28 das 46 turbinas de Jirau, com força geradora de 2,1 mil megawatts (MW). O cronograma do consórcio previa seu acionamento em março de 2012, dez meses antes do início estimado no contrato de concessão - que prevê a hidrelétrica em força total até maio de 2014.

Especialista: preço de energia não deve subir

Segundo Paranhos, o canteiro de Jirau empregava 21 mil pessoas. Ele disse que é preciso ter entre 17 mil e 18 mil pessoas trabalhando no canteiro o mais rapidamente possível para recuperar o tempo perdido. Ainda assim, Paranhos admitiu que o cronograma pode vir a ser cumprido somente alguns meses depois de março, embora ainda em 2012. Já a data prevista para conclusão da Casa de Força 2, entre junho e julho de 2012, está mantida.

- Mas tudo vai depender da garantia de segurança dada aos funcionários - disse.

O atraso na entrada em operação de Jirau, no entanto, não deve provocar aumento nos preços da energia negociada no mercado livre. Raimundo Batista, diretor da comercializadora Enecel Energia, explicou que o mercado está bem atendido para 2012 e lembrou que a energia de Jirau era uma antecipação.

- Era a oferta de uma energia antecipada. O mercado está robusto, então, a não ser que ocorra um atraso significativo, os preços não serão afetados - afirmou.

Paulo Pedrosa, presidente da Abrace, que reúne os grandes consumidores de energia, também não espera alta de preços. Ele lembrou que, em 2010, o consórcio responsável por Jirau ofertou energia no mercado livre a R$136 o megawatt-hora (MWh), e ninguém comprou:

- O mercado está abastecido para o curto prazo. Eles (Jirau) tentaram vender a energia a um preço elevado. A indústria não aceitou, porque perderia ainda mais competitividade.

As obras de montagem dos alojamentos, segundo Paranhos, foram retomadas ontem de manhã. E o Energia Sustentável está conversando com a Camargo Corrêa, responsável pelas obras, para reiniciar ainda esta semana a concretagem.

O consórcio informou que a rebelião não alterou o plano de investimentos na hidrelétrica, orçada em R$9,6 bilhões.

Paranhos contou ter ouvido vários depoimentos de empregados querendo voltar ao trabalho porque, embora recebam o salário, com a paralisação não há horas extras. O presidente do Energia Sustentável também acredita que muitos que partiram vão querer retornar, porque têm rendimentos entre R$1.300 e R$1.400, com carteira assinada, benefícios e cesta básica.

Obras de Santo Antônio devem ser retomadas hoje

O procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho (MPT) em Rondônia, Francisco Cruz, disse ontem que quer ampliar para os trabalhadores terceirizados em Jirau as garantias dadas aos empregados da Camargo Corrêa pela liminar concedida no último sábado pela Justiça do estado.

O consórcio responsável pela construção da hidrelétrica de Santo Antônio, também no Rio Madeira, cujas obras haviam sido paralisadas na sexta-feira, informou que os trabalhos serão retomados hoje.