Título: Pouco se sabe sobre o que os rebeldes estão pensando
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Fonte: O Globo, 24/03/2011, O Mundo, p. 28
NOVA YORK. O especialista em estudos de segurança Paul Sullivan, da Universidade Georgetown, diz que os riscos de caos e de uma insurgência na Líbia são grandes, e que a probabilidade de uma transição fácil para a democracia é mínima. Quais os riscos de a Líbia entrar em um caos ou se desintegrar, agora ou após uma possível queda de Kadafi? PAUL SULLIVAN: Há riscos consideráveis de algum grau de caos. Se Kadafi cair, isso não significa que acabou. Há muitos em sua tribo, há seus mercenários e outros que poderão continuar lutando. Poderia haver uma insurgência. Isso poderia durar muito tempo. A visão otimista é de que Kadafi cairá, a paz chegará a toda a Líbia e uma democracia florescerá. A probabilidade de uma transição fácil é pequena, dado que o país não tem história de democracia e na verdade não tem um governo tal como nós o conhecemos. O país está se dividindo em tribos em muitos lugares. Como saber qual o limite entre a proteção dos civis e o apoio a uma luta conduzida por homens armados? SULLIVAN: Esta é uma pergunta difícil. Proteger os civis deveria ser a prioridade, este é o objetivo da resolução da ONU. Qual a importância dos laços tribais na Líbia, eles são preponderantes em relação ao interesse nacional? SULLIVAN: Os laços tribais sempre foram muito importantes na Líbia. Eles estão, em parte, definindo quem apoia quem agora. Não estou certo de como um integrante comum de uma tribo vê o conceito de Líbia, de nação. Eles querem sair de debaixo da opressão de Kadafi, e só depois é que vão pensar no que fazer em seguida. Haverá animosidades entre as tribos com as quais se terá que lidar, não importa qual seja o resultado. De quanta ajuda externa a sociedade líbia vai precisar para construir instituições democráticas? SULLIVAN: Eles vão precisar de uma quantidade enorme de ajuda. Praticamente não existem instituições governamentais hoje, Kadafi esvaziou o governo e instalou comitês populares. Isso não funcionou. Praticamente não há uma sociedade civil de verdade. Tudo terá que ser construído quase do zero, mas há milhares de líbios com bom nível de educação que podem contribuir para esse processo. Qual a clareza que se tem sobre quem está no comando da rebelião e quais são os seus objetivos? SULLIVAN: Não há muita clareza, a não ser sobre alguns nomes, de um ex-ministro ou um general dissidente, e algumas outras figuras mais conhecidas. Fora disso, pouco se sabe sobre o que os rebeldes realmente estão pensando. Como o senhor avalia as possibilidades de os Estados Unidos se afastarem do comando da operação militar dentro de alguns dias? Essa operação lhe parece algo de longa ou de curta duração? SULLIVAN: Não tenho certeza de para onde isso está caminhando.