Título: Coalizão corta asas de Kadafi
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Fonte: O Globo, 24/03/2011, O Mundo, p. 28

Reino Unido anuncia destruição de forças aéreas da Líbia, e Otan inicia bloqueio naval Após 300 missões aéreas e 162 mísseis de cruzeiro Tomahawk lançados por forças da coalizão desde o início da operação Odisseia da Alvorada, no sábado, o Reino Unido afirmou que as forças aéreas do coronel Muamar Kadafi "não existem mais como forças combatentes", possibilitando que os aliados operem "quase impunemente" a partir do céu da Líbia. A destruição das defesas aéreas de Kadafi permitiu que os bombardeios da coalizão ¿ até então realizados sobretudo nos arredores de Trípoli ¿ se concentrassem ontem sobre tropas do ditador nas cidades de Ajdabiya, Misurata e Zawiya, onde rebeldes e militares vêm se confrontando violentamente, e franco-atiradores do regime têm matado civis. Os ataques a essas cidades levaram a um recuo das forças leais a Kadafi, sobretudo em Misurata, sitiada pelos militares pró-regime há dias. A supremacia aérea sobre Kadafi foi reforçada com o início do bloqueio naval da Otan no Mediterrâneo, para impedir a entrada de armas na Líbia. Enfraquecida após quase 12 horas de bombardeio aliado, parte das tropas de Kadafi que cercavam Misurata fugiu ou foi destruída, dando uma trégua temporária a um confronto que dura cinco dias e já custou a vida de ao menos 100 pessoas, das quais 60 seriam civis. Pela primeira vez em dias, o comércio voltou a abrir em Misurata, apesar de franco-atiradores leais ao regime continuarem no topo de prédios, matando somente ontem 17 pessoas, segundo o movimento insurgente. Mas o foco de maior tensão residia num hospital da cidade, sob ataque de franco-atiradores, que ao cair da noite, com o fim da ofensiva aliada, foi cercado por tanques do regime. Ao menos três pessoas morreram no local. Segundo médicos desse hospital, a situação no estabelecimento é crítica, pois falta energia, medicamentos e o número de feridos é muito elevado. ¿ Os franco-atiradores estão atirando contra o hospital e as duas entradas estão sob forte ataque. Ninguém pode entrar ou sair ¿ disse Saadoun, um morador da cidade, lembrando também que faltavam alimentos em Misurata devido ao cerco. Em Zintan, cidade próxima à fronteira com a Tunísia também sitiada pelas forças de Kadafi, seis pessoas foram mortas em ataques, segundo um porta-voz rebelde. Em Ajdabiya, a pouco mais de 100 quilômetros a oeste de Benghazi, insurgentes continuam a disputar com militares o controle da cidade, com a ajuda dos bombardeios aliados para enfraquecer as tropas do governo. Já na cidade sede do movimento rebelde, Benghazi, onde a coalizão impediu o avanço das forças do ditador logo no primeiro dia da ofensiva, uma passeata foi organizada em agradecimento ao Ocidente. Três jornalistas da AFP detidos em Trípoli foram liberados ontem, e uma equipe da al-Jazeera, também presa pelo governo, deve ser solta ainda hoje. Segundo o almirante americano Gerard Hueber, apesar das conquistas dos aliados nas cidades disputadas pelos dois lados, as forças militares líbias continuam em "ampla violação da resolução da ONU ao atacar a população civil". Hueber afirmou que, por isso, a coalizão passou a atacar sobretudo a artilharia do regime e os mísseis móveis. O presidente Barack Obama, no entanto, rejeitou uma invasão terrestre por tropas dos EUA para forçar a saída de Kadafi, descartando-a em entrevista à rede de TV Univision como "totalmente fora de questão". Ontem a coalizão ganhou o reforço da Espanha, que se juntou a outros dez países que participam da ofensiva, cedendo quatro caças F-18, um Boeing 707, um submarino e uma fragata, além de 500 soldados. Dois outros países árabes ¿ Jordânia e Kuwait ¿ também aceitaram participar da coalizão, mas se limitando apenas a um papel logístico. As novas adesões, no entanto, não escondem a preponderância dos EUA no conflito: das 175 missões realizadas de terça para quarta, 113 foram levadas a cabo pelas forças americanas. Ainda assim, o secretário de Defesa, Robert Gates, anunciou que poderia entregar o comando da operação já neste sábado. Um assessor de Barack Obama voltou a afirmar que o presidente americano pretende transferir o comando para uma coalizão na qual a Otan tenha um papel-chave. Mas uma reunião ontem da Aliança Atlântica terminou sem nenhum consenso. A Otan, no entanto, começou a participar pela primeira vez da missão contra o regime de Kadafi, patrulhando as águas do Mediterrâneo para garantir o embargo de armas decretado pela ONU. Alemanha retira navios da região Até agora, 16 embarcações de diversos países foram designados para a operação ¿ inclusive da Turquia, que vem fazendo oposição à ideia de um comando da Otan para a ação. Seis navios de países da organização já estão próximos da costa líbia, no Mar Mediterrâneo, para monitorar o embargo de armas. Eles estão encarregados de interceptar e abordar qualquer embarcação suspeita de transportar armas ou mercenários, "sem entrar em águas líbias", segundo um porta-voz da Aliança Atlântica. A Alemanha, que desde o início se opõe à intervenção militar no Norte da África, ordenou a retirada de todos os seus navios das operações da Otan no Mediterrâneo. Enquanto isso, os rebeldes se organizam para uma hipotética Líbia sem Kadafi. O Conselho Nacional Líbio, com sede em Benghazi e que vem atuando como a liderança do movimento rebelde, decidiu mudar seu nome para Governo Interino. De início, foi divulgado que o economista reformista Mahmud Jabril seria o novo líder do governo, mas a informação foi negada por um porta-voz. Masur Salif al-Nasr, um dos representantes do Governo Interino, garantiu que a liderança que surgir no caso da queda de Kadafi seria "secular e democrática". ¿ O povo líbio é moderado e não será governado por clérigos.