Título: Portugal e as difíceis escolhas europeias
Autor:
Fonte: O Globo, 26/03/2011, Opinião, p. 6
Aadmissão na União Europeia e a posterior adesão à moeda única ¿ o euro ¿ transformaram positivamente a economia portuguesa, fazendo com que o país deixasse de ser uma nau sem rumo, perdida após as reviravoltas que ocorreram a partir da Revolução dos Cravos. Sem contar com as antigas colônias (províncias ultramarinas, como o regime salazarista gostava de denominá-las) e ainda tendo de absorver mais de um milhão de retornados, Portugal parecia uma nação condenada a definhar até que a entrada na União Europeia surgiu como tábua de salvação.
Portugal revigorou-se, especialmente com a adesão ao euro, e isso se fez visível em sua infraestrutura, em suas cidades. Os portugueses passaram a contar com serviços de Primeiro Mundo e tiveram também de se esforçar para aumentar a produtividade de setores tradicionais de sua economia (alguns até não resistiram nesse processo). As fontes de financiamento se multiplicaram e a custos mais baixos. E, como muitos países em fase de transição, Portugal foi seduzido pelo endividamento.
A facilidade com que conseguia financiar déficits contribuiu para que Portugal mantivesse uma estrutura de gastos públicos incompatível com os desafios que se apresentavam diante da sua economia.
Um círculo vicioso se formou, com o baixo crescimento virando pretexto para não se atacar os problemas (que, por sua vez, impediam a economia de deslanchar).
A crise financeira internacional de 2008/2009 pegou Portugal, então, em situação vulnerável: baixo crescimento econômico e elevada necessidade de financiamento externo. O país ficou sem ter para onde correr, já que seus principais parceiros comerciais (Espanha, Alemanha. Inglaterra e Irlanda) também haviam sido duramente atingidos pela crise.
No ano passado, Portugal pôs em prática um programa de ajuste viável, e os resultados foram até melhores que os esperados. No lugar de uma recessão mais séria, a economia conseguiu crescer, ainda que modestamente.
Mesmo assim, esse ajuste transcorreu sob uma saraivada de críticas, e com muito custo político para o governo do primeiro-ministro socialista José Sócrates. A oposição não apresentou opções realistas e concretas, ficando apenas no discurso crítico.
Com a proximidade das eleições parlamentares, o embate entre governo e oposição se acirrou . Sem apoio do parlamento, José Sócrates não teve alternativa, e, como prometera, renunciou há poucos dias.
Sem ajuda financeira, Portugal não consegue refinanciar suas dívidas e déficits. Mas esta ajuda obviamente está condicionada a uma redução progressiva de ambos, o que exigirá sacrifícios. Para tal, o governo precisa de respaldo político.
É uma equação difícil de ser resolvida. A resistência a enfrentar a difícil realidade não é uma exclusividade portuguesa. Ela se estende da Grécia à Irlanda, passando por França, Alemanha, Bélgica e Inglaterra. Nesse impasse, as economias mais frágeis tendem a sofrer mais.