Título: Brasil se afasta do Irã em direitos humanos
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Fonte: O Globo, 25/03/2011, O Mundo, p. 36

Ogoverno de Dilma Rousseff pôs fim à postura de paciência do governo Lula em relação ao Irã e mudou ontem claramente de tom quanto ao país, votando a favor de uma resolução que abre o caminho para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, investigar as numerosas denúncias de violações imputadas ao governo de Mahmoud Ahmadinejad.

A resolução, proposta por Washington, foi aprovada por 22 votos contra 7. Um alto funcionário do governo brasileiro disse que o presidente americano, Barack Obama, pediu pessoalmente no seu encontro em Brasília com Dilma Rousseff que o Brasil fosse coautor da resolução. Dilma não teria respondido. Fez mistério até o momento da votação, quando o Brasil sinalizou que, se havia uma política entre brasileiros e iranianos, esta foi fortemente abalada.

O voto contrasta com a decisão do Brasil de optar, em novembro passado, pela abstenção na votação de uma resolução num comitê da Assembleia Geral condenando o desrespeito aos direitos humanos no Irã. A medida pedia o fim dos apedrejamentos, as perseguições a minorias étnicas e os ataques a jornalistas. Durante o governo de Lula, houve mesmo um empenho pessoal do então presidente brasileiro e do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, na tentativa de mediar uma solução para o programa nuclear iraniano, visto com desconfiança pelo Ocidente.

Na votação ficou clara a divisão: entre os sete que apoiaram o Irã estão países com sérios problemas de direitos humanos e que temem um dia ser alvo de uma resolução semelhante, como Cuba, Paquistão e China. Outros 14 países, dos 47 que formam o Conselho - se abstiveram, e quatro não compareceram ao voto. O próximo passo será nomear um relator especial para investigar as violações no Irã - o que não deve acontecer antes de julho.

- Este não é um voto contra o Irã. É um voto a favor do fortalecimento do sistema de direitos humanos - justificou a representante do Brasil no conselho, a embaixadora Maria Nazareth Farani Azevedo.

Embaixadora diz que país persa se fechou

Segundo ela, o voto é coerente com a mensagem de Dilma Rousseff, de que direitos humanos são um elemento central da política externa e interna do Brasil. Mas é também coerente - insistiu - com as posições do governo no Conselho de Direitos Humanos. A embaixadora lembrou que o Brasil já havia votado a favor de resoluções similares no passado. E justificou a abstenção do Brasil na antiga Comissão de Direitos Humanos da ONU (atual Conselho) em 2001 dessa forma: o Brasil se absteve porque o Irã se mostrou aberto ao diálogo, recebendo oficialmente seis relatores entre 2001 e 2006. Mas diante da recusa do país em receber visitas, o Brasil voltou a favorecer a existência de um mecanismo de monitoramento sobre o país persa.

- O Irã se fechou, e por isso votamos a favor do mandato do relator especial - justificou a representante brasileira.

A embaixadora negou que o voto seja parte de uma barganha diplomática para que o Brasil obtenha uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU.

- Achar que o voto sobre o mandato do Irã é passível de troca para a entrada do Brasil no Conselho de Segurança é diminuir muito a importância do Brasil. O país tem todas as credenciais para almejar a uma cadeira permanente do Conselho, e não são os direitos humanos que serão negociáveis - disse.

A votação durou apenas alguns minutos. Num discurso antes da votação, a embaixadora citou a pena de morte no Irã como uma "preocupação particular" do governo brasileiro. Numa entrevista ao jornal americano "Washington Post" assim que foi eleita, Dilma Rousseff considerou a condenação à morte de Sakineh Ashtiani por apedrejamento um ato "medieval". Essa declaração foi o primeiro indício de que o novo governo mudaria o tom em relação ao Irã.

Eileen Chamberlain Donahoe, representante dos Estados Unidos no conselho da ONU, fez um discurso dizendo que a situação dos direitos humanos no Irã havia se deteriorado "dramaticamente" nos últimos anos.

O Irã, como esperado, classificou o voto como uma intrusão nas questões internas do país, e teve apoio do Paquistão, que falou em nome da Organização da Conferência Islâmica - órgão que representa as nações muçulmanas e tem base na Arabia Saudita.

- Por uma questão de princípio, o Paquistão não apoia mandatos contra um país - disse o embaixador paquistanês Zamir Akramele. - Nenhum país no mundo pode afirmar que tem um histórico imaculado em matéria de direitos humanos."

Outro que partiu em defesa do Irã foi Cuba. O embaixador Rodolfo Rodriguez criticou o que chamou de "apetite imperialista" do Ocidente , e queixou-se de que na época do xá do Irã - apoiado pelos EUA e derrubado pelos aiatolás - havia repressão, mas ninguém dizia nada.

- (A votação) é apenas um pretexto para fundamentar uma política de hostilidade e eventualmente um ataque militar contra o Irã. Cuba não se silenciará diante desta situação - afirmou o cubano.