Título: Saída de Agnelli, cartada para agradar ao governo
Autor: Camarotti, Gerson ; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 27/03/2011, Economia, p. 41
BRASÍLIA. O Bradesco decidiu entregar a cabeça do executivo Roger Agnelli do comando da Vale ¿ conforme revelou o colunista Ancelmo Gois, na última sexta-feira, no site do GLOBO ¿ numa jogada pragmática para valorizar seu passe junto ao governo. Afinal, os interesses do banco em Brasíli não se resumem à Vale, mas também incluem negócios rentáveis como o Banco Postal, cujo contrato com os Correios termina em dezembro deste ano, após dez anos de exclusividade na exploração do serviço. Por isso, no Planalto, a avaliação é que na reta final o Bradesco acabaria cedendo, o que de fato aconteceu.
Nos dez anos de uso das agências dos Correios para oferecer serviços bancários, o Bradesco abriu mais de dez milhões de contas e, só com a tarifa de manutenção cobrada, o faturamento do banco supera R$800 milhões por ano. A licitação que será aberta este ano pode atrair o interesse de Banco do Brasil, Itaú Unibanco e Santander.
O banco decidiu apoiar a destituição de Agnelli do comando da Vale, maior empresa privada do país, em reunião do presidente do Conselho de Administração, Lázaro Brandão, em São Paulo, na última sexta-feira, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil, Ricardo Flores. Os três representam os maiores acionistas da Vale: União e fundos de pensão, além do Bradesco.
Dilma, agora, quer mostrar distância da sucessão Há dez anos à frente da Vale, Agnelli vinha sendo alvo de ataques do governo desde que demitiu 1.300 pessoas no Brasil e no exterior no auge da crise econômica, em 2008.
Derrubado Agnelli, o governo agora quer mostrar distância da sucessão na empresa, embora esteja acompanhando o assunto com lupa. O cuidado é tão grande que a própria Dilma está em silêncio sobre o tema. Na noite de sexta-feira, durante cinco horas de jantar com cineastas mulheres no Palácio da Alvorada, ela recusou-se de forma veemente a falar sobre o assunto, ao ser questionada por convidadas. Internamente, Dilma também determinou que todos os ministros não deem declarações sobre o episódio.
O que se diz nos bastidores da área econômica é que, num primeiro momento, o banco ainda tentou defender seu executivo na Vale. Mas, depois de rusgas até mesmo com o presidente Lula em 2008 e de dez anos no cargo, o Bradesco achou melhor abrir mão de Agnelli. Por esta versão de integrantes da equipe econômica, Agnelli já não se portava como executivo, mas quase como proprietário da empresa, o que teria facilitado a decisão.
Um ministro ressaltou ontem que o Bradesco jogou certo: ao ceder, deixou o governo devedor do banco. Além disso, o Bradesco reforça sua posição de parceiro preferencial e confiável, observou.
Está sendo estudada a indicação do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, para o conselho de administração da Vale como representante da Previ. No governo Lula, o então secretário-executivo da Fazenda, Nelson Machado, fazia parte do conselho fiscal da Vale. No entanto, Barbosa é muito próximo da presidente Dilma e sua ida para a empresa dá uma ideia da importância que o Planalto confere ao que ocorre dentro da companhia.