Título: Homenagem e política no adeus a Alencar
Autor: Herdy, Thiago
Fonte: O Globo, 01/04/2011, O País, p. 12

Durante velório, Lula afirma que, ao se afastar dez dias da política, ficou desorientado e louco por uma reunião

BELO HORIZONTE. Uma fila obediente dava voltas na Praça da Liberdade, no coração de Belo Horizonte, quando o caminhão de Bombeiros apontou no lado oposto do Palácio da Liberdade, antiga sede do governo de Minas. O carro com o corpo de José Alencar cruzou a praça em meio a quatro mil pessoas com vontade de ver pela última vez o homem que não via o câncer como palavra feia, ao tratar a doença com tranquilidade em entrevistas. O que elas não sabiam é que, intimamente, Alencar viveu momentos de grande sofrimento. E refletia sobre até que ponto valia continuar aquele sacrifício, se diminuir o volume de remédios seria uma forma de não perder o gosto pela vida. Era um dilema que Alencar compartilhava com o ex-presidente Lula.

Esta foi a primeira lembrança que Lula disse ao chegar no velório e encontrar o senador Aécio Neves (PSDB). Foi o primeiro encontro dos dois adversários desde que Lula deixou o poder. Mas, apesar de a promessa de oposição altiva ao governo petista, seguidamente repetida por Aécio, a relação dos dois parece ter voltado ao clima que marcou os últimos oito anos.

- Vamos nos encontrar para conversar um pouco, em Brasília ou qualquer lugar por aí - disse Lula a Aécio.

- Dez dias fora da política já estou desorientado, estou louco pra fazer pelo menos uma reunião - continuou Lula.

- É, política só tem mesmo porta de entrada, não tem jeito de sair - respondeu o tucano.

O ex-presidente contou ao mineiro que nas próximas semanas pretende fazer viagens pelo Brasil. Aécio comentou que também tem sido muito cobrado para viajar, mas brincou dizendo que Lula, agora, está em outro patamar: virou um político que se coloca praticamente acima de questões partidárias.

Aécio levou Lula para cumprimentar a irmã, Andréa, e a mãe, Inês Maria. Do outro lado do caixão, a presidente Dilma Rousseff conversava com os bisnetos de Alencar, ao lado da mulher de Lula, Marisa Letícia, e da viúva Mariza. A conversa foi interrompida para o início de uma oração, celebrada pelo arcebispo de BH, Dom Walmor Oliveira.

Olhando para Alencar no caixão, Lula chorou mais uma vez. Dilma dividia o olhar entre o caixão e o ex-presidente à sua frente, como se temesse que o amigo passasse mal.

Aécio Neves passa mal e precisa de atendimento

Por ficar em pé ao lado do caixão por quase duas horas, Aécio não aguentou e saiu às pressas da cerimônia. Branco, suando e quase sem conseguir andar, o senador precisou ser atendido por paramédicos. O susto durou 20 minutos. Pouco tempo depois ele desceu e se encontrou novamente com Lula, Dilma, o governador mineiro Antonio Anastasia e a família de Alencar. Aécio levou o Dilma e Lula até o carro na hora deles deixarem o velório.

- Marcamos para conversar um pouco mais aí pra frente - repetiu Lula.

O corpo de José Alencar foi levado em uma limusine preta até o Cemitério e Crematório Parque Renascer, na Grande BH, onde foi cremado depois de três salvas de tiros de festim e 21 tiros de canhão.