Título: 'Governo aponta para ser mais austero do que 2ª gestão de Lula'
Autor:
Fonte: O Globo, 03/04/2011, O País, p. 12
Eleita na esteira da popularidade do antecessor, Dilma Rousseff já deu sinais de que a sua gestão terá marca própria, avalia o cientista político e professor da FGV de São Paulo Cláudio Gonçalves Couto. Para ele, Dilma agiu com mais "restrição" na negociação de cargos com a base aliada e foi mais dura com insubordinações. Sobre as reformas tributária e política, Couto vê pouca disposição da presidente para "gastar combustível político" com debates.
Silvia Amorim
Como Dilma se saiu na formação do governo e na acomodação de aliados?
CLÁUDIO GONÇALVES COUTO: Ela fez um começo de governo disposta a comprar brigas que talvez sejam importantes num momento de formação e definição do espaço de cada partido da coalizão. Privilegiou o PT e repete o que foi o primeiro mandato do Lula. Agora, me parece que a escolha se deu por certa desconfiança que tinha de certas figuras do PMDB para ocupar posições estratégicas, como a Saúde. Esse perfil mais restritivo de negociação tem a ver com a preocupação de conferir um perfil mais técnico a certas áreas, e isso tem muito a ver com o perfil dela.
A acomodação é sustentável ou a pressão dos aliados deve aumentar?
COUTO: É sustentável, se não houver grandes crises no governo.
O que diferencia Dilma e Lula nas negociações com os partidos?
COUTO: Ela foi hábil no sentido de congelar a distribuição de cargos a cada crise que acontecia. Mandou um aviso: não cederei sob pressão. Foi uma decisão acertada.
A promessa de nomeações mais técnicas do que políticas não ficou só no discurso?
COUTO: Ela conseguiu fazer isso, em parte, no segundo e terceiro escalão, que é onde mais importa. Ministros não precisam ser técnicos, mas sim órgãos de natureza administrativa. O governo aponta para ser um governo mais austero do que o 2º mandato do Lula, mais contido no gasto público e mais ortodoxo na projeção. Pelo perfil da Dilma, como alguém que disciplina seus subordinados, ela demonstrou que o governo tem que ter fala única para fora e que ela será mais dura com insubordinações.
Temas prioritários como as reformas política e tributária não voltaram à agenda de Dilma após a campanha. Isso pode indicar falta de disposição do governo para entrar nas discussões?
COUTO: Duvido que o governo vai entrar diretamente nas duas reformas. No caso da reforma política, o governo entrar na discussão pode significar contrariar aliados. Na tributária, o problema é a fragmentação de interesses dos estados, e aí a coisa pega. Vejo mais disposição no sentido de implementar ações pontuais para reduzir burocracia e facilitar a vida do contribuinte do que mudança radical da estrutura tributária. Ela já entendeu que isso não avança e não deverá gastar o combustível político com isso.
Há dúvida se Dilma conseguirá imprimir marca própria à gestão ou seguirá sendo a sucessora de Lula. O que o início de governo sinaliza?
COUTO: Ela claramente tem um perfil muito diferente do do presidente anterior. Não é uma figura tremendamente carismática e com perfil de político de palanque. É mais técnica, e tudo isso vai, aos poucos, imprimir uma marca diferenciada ao governo. Acho difícil imaginar que marca será essa agora. É muito cedo. Mas alguma coisa já começa a aparecer. Talvez essa marca própria fique mais clara ao final deste ano.