Título: Democracia e expansão econômica, terreno fértil para greves
Autor: Almeida , Cássia
Fonte: O Globo, 03/04/2011, Economia, p. 43

A onda de revoltas que se espalhou por canteiros de obras país afora não resulta apenas da insatisfação dos trabalhadores com suas condições de trabalho e da falta de canais de comunicação com os patrões. Na opinião de especialistas, ela é produto do retorno do crescimento acelerado do país - após duas décadas de ausência de grandes obras de infraestrutura - e da consolidação do regime democrático, que favorece manifestações sociais antes reprimidas pela ditadura. Deve ser entendida ainda sob a ótica do fenômeno da internet, que leva informação em tempo real aos quatro cantos do mundo, contribuindo para o "contágio" das reivindicações.

Nos anos 70, grandes manifestações de trabalhadores eram impensáveis. Apesar do milagre econômico, que impulsionava grandes obras, como a ponte Rio-Niterói, mortes e maus-tratos de operários eram abafados pelo regime militar. O cenário começou a mudar em 1978, com as paralisações dos metalúrgicos de São Bernardo. À medida que o Brasil caminhava para a abertura política, greves começaram a pipocar, lembra o historiador Daniel Aarão Reis.

Até bife motivou rebelião de operários no passado

A partir de meados dos anos 80, porém, os movimentos sindicais diminuíram de intensidade. Por um lado, essa trégua revela os resultados recentemente alcançados pelos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, avalia Aarão Reis. Por outro lado, refletem um longo período de baixo crescimento da economia.

- Vivemos um marasmo econômico nas últimas décadas e, agora, voltamos a crescer em ritmo acelerado, com a retomada das grandes obras. O problema é que o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), ícone desse retorno, não contemplou demandas trabalhistas, como se propôs na área ambiental, por exemplo. Foi uma falha do governo, das empresas e das próprias centrais sindicais - diz o consultor sindical João Guilherme Vargas Neto.

Ele frisa ainda a influência das mídias digitais na atual onda de manifestações. Com elas, reivindicações na longínqua Rondônia, onde estão sendo erguidas as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, meninas dos olhos do PAC, puderam ecoar no Porto de Açu (RJ), de Eike Batista, e na refinaria Abreu Lima (PE), da Petrobras:

- Da mesma forma que um país árabe influenciou o outro na onda de protestos no Norte da África, um canteiro de obras influenciou o outro no Brasil.

Além da inovação tecnológica e do novo contexto politico-econômico, as atuais manifestações se diferenciam das antigas revoltas por sua motivação. Se hoje trabalhadores querem participação nos lucros e plano de saúde, no passado, um prato de comida era suficiente para os ânimos se exaltarem. Em 1959, operários que trabalhavam na construção de Brasília se rebelaram devido à precariedade da comida servida no refeitório, sendo reprimidos com violência. Houve mortos e feridos.

Em abril de 1980, peões e seguranças da obra da hidrelétrica de Tucuruí (PA) também se enfrentaram após protestos que demandavam a inclusão de bife no cardápio. Os peões malharam um Judas vestido com uniforme dos seguranças da Camargo Corrêa, responsável pela obra. O resultado foi a prisão de dezenas de trabalhadores e operários feridos a bala.

Historiador vê novo ciclo de manifestações

Na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, entre 1907 e 1912, por exemplo, operários italianos organizaram um motim devido aos baixos salários em comparação aos dos trabalhadores americanos.

De uma forma ou de outra, o que todas essas manifestações revelam, na opinião de especialistas, são as falhas na comunicação entre empregados e patrões. Enquanto o diálogo não melhora, novas ondas de protestos devem pipocar.

- Tendo a pensar que estamos no limiar de um novo ciclo, com os trabalhadores se sentindo em condições de pressionar por uma participação maior na distribuição da renda nacional - diz Aarão Reis.