Título: A despedida no Planalto
Autor: Lima, Maria
Fonte: O Globo, 31/03/2011, O País, p. 11

Quase seis mil pessoas e uma centena de autoridades foram ao velório do ex-vice-presidente

Luiza Damé, Roberto Maltchik, Demétrio Weber, Mônica Tavares e Isabel Braga

BRASÍLIA. Políticos governistas e de oposição, empresários e populares mudaram a rotina do Palácio do Planalto ontem, durante as mais de 12 horas do velório do ex-vice-presidente José Alencar. Até o início da noite, uma centena de autoridades e quase seis mil populares passaram pela cerimônia na sede do governo - o último político velado no Planalto foi Tancredo Neves, em 1985. A deferência a Alencar teve início às 11h01m, quando o corpo chegou ao Palácio e subiu a rampa, levado por seis militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, sob os estampidos da salva de 21 tiros de canhão. O corpo de Alencar será cremado hoje à tarde, em Contagem, após velório no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte.

Às 21h30m, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula chegaram ao Planalto, vindos de Portugal, para o velório. Aos prantos, Lula beijou o rosto de Alencar. Dona Marisa repetiu o gesto. Dilma pegou na mão de Alencar.

O carisma de Alencar superou divergências ideológicas, levando políticos de várias matizes a reverenciar sua vontade de viver e sua habilidade para aproximar setores divergentes. O ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, e o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro reconheceram a influência de Alencar não só na condução do governo Lula, mas também sobre a política de alianças do PT.

- Ele esteve mais à esquerda do que muita gente do próprio PT, especialmente em assuntos econômicos. Era uma grande alma - disse o deputado cassado José Dirceu.

O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), destacou a ousadia política de Alencar ao criticar ações de seu próprio governo, sem jamais atacar Lula.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse que Alencar provou que vale a pena viver e comparou sua trajetória à do avô Tancredo Neves:

- Foram dois grandes mineiros.

Após desembarcar na Base Aérea de Brasília, às 10h20m, o corpo de Alencar foi recepcionado pelo presidente em exercício, Michel Temer, e pelos familiares do ex-vice-presidente. O cortejo fúnebre seguiu em carro aberto do Corpo de Bombeiros até o Planalto.

O ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, que passou a conviver com Alencar na campanha de 2002, foi emocionado ao caixão e beijou sua testa.

O Salão Nobre ficou lotado durante a missa. O empresário Jorge Gerdau disse que Alencar foi um exemplo na vida empresarial e na vida pública:

- Essa conjugação ajudou o país de forma intensa. Deixou um exemplo de cidadania muito ampla.

O acesso ao público foi liberado às 12h50m. Depois disso, a fila deu lugar a um fluxo contínuo de pessoas subindo e descendo a rampa. A aposentada Ezimar Vieira dos Santos, de 51 anos, chorou diante do corpo. Com câncer no intestino e na tireoide, ela disse achar inspiração no exemplo de Alencar:

- Luto contra o mesmo câncer de José Alencar há quatro anos e meio. Ele é um grande herói que me deu força.