Título: Ruralistas ameaçam deputados
Autor: Éboli , Evandro
Fonte: O Globo, 06/04/2011, O País, p. 3
Numa das maiores manifestações de produtores rurais realizadas até hoje em Brasília, a bancada ruralista levou, segundo a Polícia Militar, 15 mil pessoas à Esplanada dos Ministérios, mas não conseguiu convencer o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), a marcar uma data para votação do projeto do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que altera o Código Florestal e atende aos interesses do setor. Em discursos, os ruralistas ameaçaram retaliar os deputados que votarem contra o texto de Aldo Rebelo.
- Não tem um senador ou deputado que não recebeu sequer um voto de um produtor rural. Quem nos trair, afrouxar e for covarde, terá o troco. Vamos mostrar quem são os inimigos do agronegócio - disse o deputado Abelardo Lupion (PP-PR), da bancada ruralista.
O governador de Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), foi na mesma linha.
- Quem não votar (a favor do projeto) será considerado traidor.
O dia foi de negociações e de certa frustração para os agricultores que, segundo a contabilidade da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), chegavam a 25 mil. No fim do dia, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da CNA, criticou Maia em discurso para os fazendeiros no palanque em frente ao Congresso.
- Peço aos gaúchos que não baixem a guarda. Fiquem de olho nele. Precisamos estar unidos, com posição fechada e acirrada. Temos a palavra dada. Votamos nele (o presidente da Câmara) e condicionamos o voto (pela aprovação das mudanças no Código Florestal) - discursou Kátia Abreu, num tom raivoso.
Os manifestantes, herdeiros da UDR (União Democrática Ruralista), tentavam acordo para estabelecer uma data para votação do texto do comunista Aldo Rebelo, pronto para ser apreciado no plenário desde o ano passado. No encontro com Marco Maia, estava presente Roberto Rodrigues, que foi ministro da Agricultura no governo Lula. O atual ministro, Wagner Rossi, não compareceu.
- Não sei onde ele anda. Deveria estar aqui - disse Kátia.
Manifestação custou mais de R$2 milhões
Marco Maia disse que colocará em votação o texto quando a comissão criada para buscar acordo sobre o tema, chamada de Câmara Conciliatória do Código Florestal, chegar a um consenso. Apesar de ter maioria nessa Câmara, a bancada ruralista não conseguiu agilizar a votação. PT e do PSOL conseguiram mais quinze dias para prosseguir com as discussões.
- O lobby do arroz de carreteiro não deu certo aqui não - ironizou Ivan Valente (PSOL-SP), um dos principais oponentes dos ruralistas.
Aldo Rebelo afirmou que, pelas atuais regras, 90% dos agricultores estão na ilegalidade e que e o principal setor atingido é o da agricultura familiar. Segundo ele, se considerada a exigência da reserva legal, 80% dos agricultores estão fora da lei. O deputado afirmou que, se o decreto do governo que obriga o produtor a identificar e registrar área de reserva legal de suas terras entrar em vigor em 11 de junho, os produtores, autuados, terão suas propriedades embargadas, com proibição de acesso a crédito.
Aldo caiu nas graças dos manifestantes e teve dia de estrela. Mal conseguia andar no meio dos produtores.
- O senhor é um iluminado!! - afirmou Luiz Viola, de Querência do Norte (PR), ao abordar o deputado.
O custo da mobilização dos ruralistas, incluindo transporte, alimentação, infraestrutura, entre outros, ultrapassou os R$2 milhões, segundo Kátia Abreu. No gramado, além do palco, foram montadas duas estruturas de lona para abrigar os manifestantes do sol e da chuva, milhares de cadeiras espalhadas, frutas, doces e salgados. No almoço, foi servido arroz de carreteiro. Para o preparo, foram necessários 1,3 mil quilos de arroz e 2,3 mil quilos de charque. As despesas teriam sido rateadas entre federações estaduais de agricultura e fazendeiros.