Título: Governo faz nova tentativa de segurar o dólar
Autor: Beck, Martha; D'Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 07/04/2011, Economia, p. 23

IOF maior é estendido a empréstimos no exterior com prazo até 720 dias, mas analistas dizem que medida é inócua

BRASÍLIA, SÃO PAULO e RIO. Em mais uma tentativa para evitar o enfraquecimento do dólar, o governo anunciou ontem que, a partir de hoje, os empréstimos de bancos e empresas feitos no exterior com prazos inferiores a 720 dias pagarão um Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6%. Na semana passada, a equipe econômica já havia fixado essa alíquota para financiamentos de até 360 dias. Mas, para analistas, a medida terá efeito muito restrito na entrada de recursos no país e não eliminará a volatilidade no câmbio, nem a tendência de valorização maior do real ante o dólar.

Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o governo decidiu estender a cobrança do tributo para contratos mais longos para conter ainda mais a chamada arbitragem - que ocorre quando os aplicadores captam recursos a um custo baixo fora do país para ganhar com as taxas elevadas pagas no Brasil. Mas a medida também deve ajudar a reduzir a oferta de crédito no país, uma vez que bancos têm usado recursos de fora para conceder financiamentos no mercado doméstico.

- O objetivo é reduzir a entrada de dólares no país e valorização excessiva do real. A medida desencoraja a tomada de crédito no exterior para quem quer fazer arbitragem. Mas também estamos procurando reduzir a oferta de crédito que entra no país por meio desse canal - disse Mantega, lembrando que ela prejudica o trabalho do Banco Central (BC) de conter o consumo excessivo e combater a inflação:

- Se você deixa a porta aberta, você neutraliza o esforço do BC.

Rubens Penha Cysne, diretor da Escola de Pós-graduação em Economia (EPGE/FGV), porém, afirma que o mercado vai procurar outro caminho para trazer dinheiro ao país:

- A capacidade da medida de frear a valorização do real é pequena, porque, ao travar esse canal, naturalmente o mercado vai procurar outra via para continuar trazendo o dinheiro para cá - diz ele, para quem o elevado diferencial entre os juros brasileiros e os pagos pelos títulos americanos continuará estimulando a entrada de recursos internacionais ao Brasil.

Mantega negou que a ação do governo seja inócua:

- Há cinco anos, o dólar estava em R$1,70. Pela evolução do câmbio, vemos que temos tido sucesso. Sem as medidas, o real estaria valendo R$1,50.

Moeda americana sobe 0,31%, cotada a R$1,614

O ministro disse que o governo vai continuar agindo para segurar o câmbio, ressaltando que isso será feito com cuidado para não prejudicar os investimentos produtivos, que são de longo prazo. Ele negou, por exemplo, que o governo possa passar a tributar o investimento estrangeiro direto (IED):

- Não estamos fazendo anúncio de pílulas aqui. Temos um rol de medidas que podemos tomar e procuramos tomar medidas que não interfiram muito na economia. Poderíamos tomar medidas muito mais drásticas, mas aí passaria a ter efeito colateral.

Na visão do economista e professor do Ibmec, Ruy Quintans, o principal problema do câmbio está na expansão fiscal promovida pelo governo.

- Esta situação me lembra a metáfora da família que quer cortar despesas e acaba deixando de comprar o alpiste do passarinho. Enquanto o governo não fizer contenção, enquanto inflar o orçamento, a valorização do real vai continuar. Com as nossas taxas de juros, não tem como não ter fluxo (de dólar). Pode botar o IOF que quiser, tomar a medida macroprudencial que quiser que não resolve. O resto é medida cosmética e pirotécnica.

Segundo Mantega, nunca houve tanto ingresso de capital estrangeiro como hoje no Brasil, sendo que esse quadro tende a se manter. Mantega lembrou, por exemplo, que o país acaba de ter uma melhora de sua nota pela agência de classificação de risco Fitch, o que é um sinal de que a economia está mais saudável.

Ontem, depois de uma manhã de queda, o dólar comercial acabou encerrando em alta, à espera do anúncio das medidas cambiais, que foi feito às 18h30m, depois do fechamento do mercado. A moeda subiu 0,31%, cotada a R$1,614 para venda. O Banco Central realizou dois leilões de compra de dólares à vista. Na mínima durante o dia, o dólar chegou a R$1,603.

Já a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu, após seis pregões de alta, num claro movimento de venda de ações para embolsar lucros. O Ibovespa desceu 1,15%, para 69.036 pontos. Foi a maior queda diária desde 16 de março.

Segundo Luiz Eduardo Portella, trader de renda fixa e câmbio do Banco Modal, e Luciano Rostagno, estrategista-chefe da corretora CM Capital Markets, a expectativa do anúncio das medidas do governo impediu que o dólar caísse abaixo de R$1,60.

Para Gilberto Braga, economista do Ibmec do Rio de Janeiro, a medida ficou muito aquém das expectativas do agentes do mercado.

- O mercado esperava algo, diferente, mas a medida não está errada. Diminui a velocidade, mas não para o carro - comprara Braga.

Segundo ele, a medida não atinge repasses intercompanhias que entram no país na forma de investimento estrangeiro direto.

- O mercado esperava algo mais duro, na linha de quarentena, que atingiria os fluxos de investimentos. Isso não aconteceu e a tendência é o câmbio continuar volátil - disse.