Título: Câmbio está fora do lugar
Autor: Carneiro, Lucianne; Ribeiro, Fabiana
Fonte: O Globo, 05/04/2011, Economia, p. 19

JOSÉ ALFREDO LAMY

O sócio da Cenário Investimentos José Alfredo Lamy atribui à política monetária americana a principal influência para o real valorizado, uma consequência da crise de 2008. A necessidade de financiar o déficit externo brasileiro, no entanto, acaba restringindo as medidas que podem ser lançadas pelo governo para conter a apreciação do câmbio.

Qual é a principal razão para a apreciação do real?

JOSÉ ALFREDO LAMY:Vivemos uma situação de excepcionalidade, que é resquício da crise de 2008, com a política monetária americana fora do lugar. Isso deixa várias coisas fora do lugar, inclusive o dólar no Brasil. O banco central americano decidiu por uma política monetária frouxa, com juros zero, além de expansões monetárias adicionais. E nosso câmbio está fora do lugar, extremamente valorizado.

Mas também há influência da taxa elevada de juros no Brasil?

LAMY: O pano de fundo é a política monetária americana, mas a qualidade da política monetária e fiscal do Brasil também se deteriorou. E vimos, ainda, um aumento de preço de commodities e melhora dos termos de troca.

A elevação do Brasil pela Fitch deve pressionar o dólar?

LAMY: Pode ser, mas não dá para saber exatamente o impacto. Em geral, as agências refletem o que já ocorreu no mercado.

O governo deve lançar mais medidas para conter a apreciação do real?

LAMY: Há sempre alternativas de medidas, mas o Brasil tem déficit em conta corrente. Há uma preocupação com medidas para conter a valorização do real, mas é o capital externo que financia esse déficit. Por outro lado, quanto mais valorizado o câmbio, menor é o impacto inflacionário. Em vez de trabalhar com meta de inflação, o governo tenta trabalhar com meta de taxa de câmbio.

Qual a melhor estratégia?

LAMY: O ideal seria o Banco Central sair do mercado, deixar o câmbio se valorizar e ter uma política fiscal mais contracionista, liberando a política monetária para ser um pouco mais frouxa. (L.C.)