Título: Enquanto isso, dólar despenca quase 2%, a R$1,584
Autor: Rodrigues, Lino; Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 08/04/2011, Economia, p. 19

Moeda americana atinge menor nível desde agosto de 2008. Presidente Dilma está preocupada com câmbio

Lucianne Carneiro, Gerson Camarotti, Martha Beck e Vivian Oswald

RIO e BRASÍLIA. Apesar das novas medidas do governo para conter a apreciação do real - com a cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% para empréstimos no exterior por menos de 720 dias -, o dólar despencou ontem e ultrapassou a barreira de R$1,60, o que não ocorria desde 7 de agosto de 2008, quando fechou a R$1,592. Ontem, a moeda americana caiu 1,86% - a maior variação diária desde 10 de junho do ano passado -, para R$1,584.

A continuidade do forte fluxo de recursos estrangeiros para o Brasil, a antecipação de operações pelo mercado diante da ameaça de mais medidas para enfrentar a desvalorização do dólar e a avaliação de que as ações são mais leves que as que seriam necessárias acabaram pesando para a queda do dólar ontem.

O professor da EPGE/FGV Fernando de Holanda Barbosa apontou que, diante da forte liquidez mundial, as ações do Banco Central têm pouco efeito. E lembrou que o mercado "é sempre criativo e encontra maneiras de contornar as restrições", o que permite que os recursos estrangeiros continuem entrando no país, pressionando o dólar para baixo.

- Uma alternativa para conter a queda do dólar seria talvez uma cobrança de IOF mais abrangente, para todos os recursos que entrassem, com uma válvula de escape para os investimentos de longo prazo, como um crédito do imposto para quem permanecesse por mais tempo - disse Barbosa, admitindo, no entanto, que tal medida é impopular.

A forte desvalorização do dólar foi motivo de preocupação da presidente Dilma Rousseff ontem, segundo assessores. Ela chegou a pedir estudos urgentes da equipe econômica para que fossem tomadas medidas mais duras para conter o "derretimento da moeda americana", expressão utilizada ontem no Planalto. A avaliação é que não dá mais para brincar e que o mercado financeiro começou a fazer uma aposta muito firme na desvalorização do dólar.

Nas palavras de um assessor do Planalto, uma ação mais enérgica seria preciso, já que as medidas "homeopáticas" tiveram efeito contrário. Foi uma referência ao anúncio feito na quarta-feira pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para o IOF.

Anúncios a conta-gotas por preocupação com inflação

A estratégia de anunciar medidas a conta-gotas - definida com anuência de Dilma - tem por trás uma preocupação com a alta da inflação. Segundo técnicos do governo, um eventual choque que reverta bruscamente a cotação do dólar acabaria elevando ainda mais os preços no país e dificultando o trabalho do BC.

Mantega sabe que está se desgastando junto a Dilma e já há quem diga que o ministro está numa saia justa por saber que não há arma de calibre que não represente um "choque" na economia. Ele disse claramente anteontem que prefere "errar para menos do que para mais", pois "a dose passaria a ter efeito colateral". Essa avaliação, segundo o próprio governo, acabou enviando um sinal de fragilidade para o mercado.

- O grande problema está no fato de o governo querer manter o dólar num patamar de R$1,65, mas não querer que ele fique acima de R$1,68 para não agravar o quadro inflacionário - admitiu ontem um técnico.

Qualquer ação mais enérgica - como a imposição de quarentena ao capital externo - acertará em cheio o setor produtivo e o crescimento da economia. E, como admitem os técnicos da Fazenda e do BC, ninguém sabe qual é o fundo do poço para o dólar. É sabido que o câmbio é flexível e que, no momento, não há como segurar a desvalorização. O que se quer ao menos é evitar os movimentos abruptos.

- O rebote depois é complicado. Ninguém quer penalizar demais a economia - disse outro integrante do governo.