Título: O Brasil já controla capital
Autor: Rodrigues, Lino; Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 08/04/2011, Economia, p. 19

MÁRCIO GARCIA

Para o professor do Departamento de Economia da PUC-Rio Márcio Garcia, o Brasil já controla a entrada de recursos. Mas não é surpresa que as medidas não tenham efeito para conter a apreciação do real, porque taxam apenas parte dos recursos.

O dólar voltou a ceder hoje (ontem). Não há nada que contenha a apreciação do real?

MÁRCIO GARCIA: Não é possível explicar exatamente um movimento de curto prazo como esse, de ultrapassar a barreira de R$1,60. A questão é que a classificação de risco do Brasil foi elevada esta semana, o que atrai mais estrangeiros e coloca ainda mais pressão no câmbio. Por outro lado, o governo está anunciando que fará mais medidas. E é possível que essas ameaças de controle de capital estejam provocando uma antecipação da entrada de recursos. Também vimos no primeiro trimestre entrada de capital maior do que em 2010. Há mais interesse no Brasil, a economia vai muito bem e as taxas de juros são muito altas.

As medidas do governo já são um controle de capital?

GARCIA: Sem dúvida. Cobrança de IOF para empréstimos no exterior é um controle de capital.

Qual é o problema das medidas?

GARCIA: Essas medidas têm um problema genético: não querem impedir a entrada de todo capital. Para crescer 5% ao ano, o Brasil precisa de poupança externa. A única alternativa a isso é aumentar a poupança doméstica. O governo não pode adotar uma política de não entrar mais capital no país. Então fica tentando separar o joio do trigo. No fundo, esse controle de capital é taxar um dinheiro e não taxar outro. Não precisa ser um gênio financeiro para saber que haverá uma enxurrada de empréstimos de dois anos e um dia. Não é muita surpresa que esses controles não tenham efeito.

Qual seria o caminho, então?

GARCIA: Controles de capital só teriam sentido se mudássemos a política econômica, reduzindo gastos. Precisamos de capital externo para crescer, fechar umas portas e deixar outras abertas.

Como deve ser enfrentado o dilema entre inflação e câmbio?

GARCIA: Claro que os juros brasileiros são muito altos, mas não têm sido suficientes para manter a inflação dentro da meta. O Banco Central terá que tomar outras medidas macroprudenciais e aumentar os juros. O correto e desejado é que o governo gastasse menos. Não apenas fizesse o corte de R$50 bilhões, mas também mudasse o Orçamento e mexesse na Previdência e no funcionalismo público. Caso contrário, teremos que conviver com juros altos para enfrentar a inflação. Outra possibilidade seria deixar o câmbio se apreciar ainda mais, a R$1,50, R$1,40, o que baixaria muito a inflação. (Lucianne Carneiro)